Fevereiro é um bom mês para começar outra vez

Com o frio vem a febre.

E é essa febre que já nos morde os calcanhares, atazana-nos. Este Inverno e esta chuva que nos obrigam a ficar em casa a rodear o sofá e rever quase toda a nossa colecção de dvd’s, dá-nos a febre. Aquela febre de cabana de quem é forçado pela intempérie a hibernar – e nós sem sono nenhum. A febre que se cura com pele de fora e sub-graves a subirem pelas plantas dos pés e a fazerem-nos levantar os braços, delirantes e em delírio.

Devíamos chamar a este mês Febreiro – o mês limite, quando o tédio se começa a tornar insuportável

e começamos a ter visões e a ouvir vozes. Vozes que nos chamam para o frio atrás da música, para sítios onde podemos encostar a nossa pele a outras peles e sentirmos outros corpos quentes para matar o tédio com a certeza que há mais quem tenha febre nesta cidade.

De qualquer das maneiras não se preocupem com termómetros, porque para quem já não sua há algum tempo, Fevereiro é um bom mês para começar outra vez.

foto-baixa

Allen Jones, “Dance with the Head and the Legs…”, 1963

Lembram-se das esculturas do bar do leite na “Laranja Mecânica” de Stanley Kubrick? Foram baseadas nas obras do artista pop britânico Allen Jones.

Jones nasceu em Southampton em 1937 e é muito conhecido pelas suas esculturas de figuras femininas transformadas em “mobiliário”. Mas Allen Jones utilizou diferentes técnicas ao longo da sua carreira: litografia, aguarela, fotografia, vídeo e pintura.

A obra que este mês aparece aqui em formato “poster” é T“Dance with the Head and the Legs…”, uma pintura a óleo pertencente à Colecção do Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian. Podem guardar ou colocar na parede, mas também podem ver a obra original na exposição “Abstracção e Figura Humana na Colecção de Arte Britânica do CAM ”, neste momento no Centro de Arte Moderna da Fundação Gulbenkian e até 18 de Abril.

SP

“Dance with the Head and the Legs…”, 1963
(Dança com a Cabeça e as Pernas…)
óleo sobre tela
183 x 152 cm
Cortesia Centro de Arte Moderna, Fundação Calouste Gulbenkian.
www.gulbenkian.pt

Download PDF Flyer

Janeiro é um bom mês para começar outra vez

A nostalgia é um prazer venenoso que nos embebeda de saudade e nos leva a dizer “antes é que era”. O antes já foi e o que interessa é o que vamos fazer agora. E seja o que for queremos fazê-lo convosco, na pista de dança até vermos nascer o sol de mais um dia. E aqui estamos vivos e juntos a cumprir a primeira década de um novo milénio. Vivos e juntos para por esses quintais adentro cantarmos orvalhadas e janeiras a raparigas casadas e solteiras. Vivos e juntos no início de um ano novo, ainda a acreditar no Amor e que a nossa vida é sempre para diante. Agora é altura de todos os inícios, porque Janeiro é um bom mês para começar outra vez.

20100106115715-1

Edgar Martins, “Caminho de Circulação de Aeronaves”, 2006

Edgar Martins nasceu em Évora (em 1977), mas cresceu em Macau.
Desde 1996 que vive em Inglaterra. Foi nesta primeira década do século XXI, que está mesmo agora a terminar, que começou a expor regularmente e foi reconhecido nacional e internacionalmente. No passado mês de Abril foi-lhe atribuído o Prémio BES Photo. Mas isto é apenas uma pequena parcela dos prémios e da atenção que tem recebido nos últimos tempos. Em 2010 e 2011 terá exposições individuais no Centre Culturel Calouste Gulbenkian, em Paris, e no Museu da Electricidade, em Lisboa.

A obra que este mês aparece aqui em formato “poster” é “Caminho de Circulação de Aeronaves”, 2006. Faz parte da série “Aproximações”, que nas palavras do autor, “é menos um conjunto de imagens e mais uma série de momentos na qual espaços, sinais e acontecimentos na paisagem se tornaram independentes de causalidade ou de função. Ela providencia encontros com um tempo tocado pela eternidade.”

Escolhemos esta fotografia porque não é necessário ver a totalidade da palavra escrita no alcatrão do aeroporto para perceber a direcção apontada. Porque, claro, nas palavras de Amadeo de Souza-Cardoso – a “nossa vida está toda para adiante”. Venha mais uma década, estamos prontos. SP

Edgar Martins, “Caminho de Circulação de Aeronaves”, 2006
Aeroporto Francisco Sá Carneiro da série “Aproximações”.
Prova por revelação cromogénea, colada sobre alumínio
98 x 127 cm

© Edgar Martins (www.edgarmartins.com)
Cortesia do artista e Galeria Graça Brandão

Download PDF Flyer

Dezembro é um bom mês para começar outra vez

Estamos quase a acabar a primeira década do século XXI. Somos as pessoas que deram vida aos anos zero do novo milénio e mais ninguém fez e viu o que fizemos e vimos. Como civilização talvez nunca tenhamos estado tão conscientes do Tempo e da História. Com Dezembro acaba também 2009, mas é connosco que a história continua. Acordámos que o tempo fosse a maneira de medir as voltas que a vida dá. Acordámos e adormecemos no subir e descer do sol. Um dia e um mês e um ano e lembramo-nos que concordámos que o tempo passasse. Lembramo-nos que não temos assim tanto tempo quando ele continua a passar sem pedir o nosso acordo. E sentimos que o perdemos, queixamo-nos que não estica. E chega o dia de celebrarmos porque temos os dias contados - chega o 31 e festejamos o tempo que ainda falta e embebedamo-nos com a esperança de queainda há tempo para isto ficar melhor. Vai, podem crer que vai ficar melhor, só depende de nós. Dezembro é um bom mês para começar outra vez…
we-are-in-this-together-jpg2
Rodrigo Oliveira, “We Are in This Together”, 2007
Arquivos. Colecções. Objectos que vai recolhendo, imagens de edifícios, documentos históricos, filmes, recortes de jornais e de revistas. É daqui que Rodrigo Oliveira (n. 1978, Sintra) parte para conceber as suas obras. A variedade de suportes que depois utiliza confronta e às vezes despista” o espectador – portas basculantes que abrem quando passamos, esculturas inflamáveis (maquetas de edifícios modernistas feitas de caixas de fósforos que o artista faz arder), intervenções arquitectónicas e alterações de grande escala de um determinado espaço. Mas também muitos desenhos, fotografias, colagens – obras que lidam com diferentes escalas. São sempre peças que, utilizando objectos e estruturas familiares, nos fazem questionar utopias sociais, políticas e o próprio contexto artístico. A obra que este mês aparece aqui em formato “poster” é “We Are in This Together”. São duas alianças unidas e gravadas, literalmente, para sempre. Segundo o artista, “um jogo entre emoção, relacionamentos afectivos e partilha”, “uma aliança, um pacto”. Uma metáfora e inevitabilidade perfeita para acabar o ano, ou melhor e mais correctamente, para começar uma nova década. Estamos mesmo nisto juntos.
SP
Rodrigo Oliveira, “We Are in This Together”, 2007
Aliança dupla em ouro (13,1 g) 18 quilates com inscrição gravada.
Cortesia do artista e da Galeria Filomena Soares.

Download PDF Flyer

Novembro é um bom mês para começar outra vez

Parecia que era desta que tínhamos um endless summer sem sairmos do mesmo lugar. A fantasia de perseguirmos o Verão à volta do mundo ia sendo substituída pelo pesadelo do Verão a perseguir-nos pelas ruas de Lisboa em pleno Inverno. Bem-vindo o Frio! Mais quinze dias de calor e colávamos o Verão normal ao Verão de São Martinho. Imaginem só: os verões colados, mais dois meses de roupa colada ao corpo e a novidade desagradável de descobrirmos a sensação de cascas de castanha coladas à pele suada.

Mas pronto, nada disto aconteceu, o que quer dizer que podemos adiar o Armaguedão pelo menos mais um ano. E isto não é uma questão de alarmismo ambiental nem de tradicionalismo climatérico, o que estamos a tentar preservar é o exemplo que a natureza sempre nos deu de que os contrastes se sucedem e uma estação dá a vez à próxima, na maioria das vezes diferente, contrastante. Como se as quatros estações fossem uma mixtape com uma playlist organizada em 4 grandes moods. Como se fossem uma sinfonia até.

Precisávamos de razões novas para dançar. Precisávamos de mudar de clima e fazer descer a temperatura para termos o prazer de a fazer subir. À liberdade da pele à mostra, sucede-se agora o mistério bom de um sobretudo. E sobretudo, o frio é uma muito boa razão para nos aproximarmos e dançarmos para aquecer.

november

Francisco Queirós, “tu és feito de luz brilha”, 2009

De cada vez que faz uma exposição, Francisco Queirós (n. 1972, Lisboa), apresenta obras em diversos suportes. Vídeos, esculturas, desenhos, instalações, colagens, objects trouvés ou mesmo, por exemplo, graffiti feitos directamente nas paredes da galeria.

Para o trabalho deste artista, que se centra num universo infanto-juvenil, tudo pode servir de material – uma conversa no messenger, uma árvore encontrada no meio da mata, um pacote de leite, uma lenga-lenga inventada, um gira-discos velho. A linguagem é sempre parte integrante, seja no meio dos seus desenhos, seja em diagramas na parede que informam o visitante de todas as obras presentes na exposição, seja em pequenas acções que vamos descobrindo pelo espaço.

Este mês a nossa obra de arte em formato “poster” é um desses graffiti que Francisco Queirós pinta nas paredes brancas da galeria. “tu és feito de luz brilha” pode ser visto in loco na exposição “Meathaus”, comissariada por João Mourão, que está no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, até dia 15 de Novembro.
SP

Francisco Queirós, “tu és feito de luz brilha”, 2009, marcador preto sobre parede, dimensões variáveis.

Cortesia do artista

Download PDF Flyer

Outubro é um bom mês para começar outra vez

Faz 99 anos a República, a velha senhora de seios fartos que se quis oferecer a todos. Velhinhas mas enxutas estão ainda as três filhas que se propunham ainda mais oferecidas – a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Imperfeita como todas as outras, a Democracia é a relação que vamos mantendo com estas senhoras, fazendo votos de que tudo continue pelo melhor. Mas dizendo a verdade e aqui entre nós, o romance foi-se perdendo e a Democracia já não é grande razão para dançar.

Já não marcamos encontro com elas nas urnas nem nos sentamos a conversar tanto quanto costumávamos, naquele nosso lugar de sempre em São Bento. Tivemos que inventar outras maneiras de manter a tusa e o fogo vivos. Começamos a marcar encontros à noite, não em parlamentos e sofás de sofistas, mas em danceterias e outros sítios de engate. Voltamos a encontrar as filhas da República na noite e na música, debaixo das luzes e abraçados pelo som. Voltamos a acreditar que a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade estão vivas, sexys e de boa saúde porque o alto e o grave da música nos empurraram uns para os outros, de igual para igual, libertando-nos para nos sentirmos mais juntos.

oktober

João Onofre, “Pas d’action”, 2002

Quem é que consegue resistir mais tempo? Quem é que aguenta mais? Um grupo de bailarinos da Companhia Nacional de Bailado foi filmado pelo artista João Onofre em 2002. Primeiro parados, em posição de descanso, depois em pontas (“sur les pointes” e “demi-pointes”). O que vemos no resto do vídeo é uma sucessão de desistências, observamos o limite de cada bailarino, quanto tempo aguentam em pontas, quem é que primeiro volta à posição inicial de descanso.

Este mês a nossa obra de arte em formato “poster” é um frame do vídeo “Pas d’action”, o momento em que todos os performers se encontram no seu esplendor, no máximo da sua força. “Pas d’action” é também o termo técnico que no ballet clássico significa um conjunto de passos que constituem uma narrativa. Vamos lá então desenrolar esta história. SP

“Pas d’action”, 2002, video, colour, sound, 4’16”, 237 x 324 cm.

Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art (Lisboa), Galeria Toni Tàpies (Barcelona), Galleria Franco Noero (Turim) e I-20 Gallery (Nova Iorque).

Download PDF Flyer

Setembro é um bom mês para começar outra vez

E se os melhores dias das nossas vidas ainda estiverem para vir?
Isto quando acaba, acaba. E se estamos vivos, ainda não acabou.
Qualquer mês é bom para começar outra vez.

Dizem os velhos mesmo velhos que Setembro é mês de recordar. Mas a nossa vida é toda para diante. Os velhos que recordem e relembrem, deixá-los a teorizar sobre erros feitos e refeitos. Nós, vamos calçar os nossos melhores sapatos e vamos ver o que a noite tem para mostrar. Vamos à nossa vida sem nos preocuparmos em lembrar.

Vamos dar à sola com o coração todo à mostra.
Quem procura, anda à procura e os caminhos fazem-se caminhando.
O que tens à tua frente é um primeiro passo.
O que tens nas mãos é um mapa para um começo possível, um brinde eterno aos novos inícios.

Avança, Setembro é um bom mês para começar outra vez.

september

Brian DeGraw, “Untitled (DJ Requests)”, 2007

Pedaços pequeninos de papel, recados escritos a altas horas, dados directamente ao DJ. Desejos de ouvir uma música precisa, necessidade de transmitir agrado. Testemunhos, com certeza, de uma noite memorável. Todos arrumados e dispostos numa moldura. É uma obra de arte de Brian DeGraw, DJ, teclista dos Gang Gang Dance e artista plástico. A ordem das actividades não interessa. As últimas capas dos Animal Collective são dele, por exemplo. Alguns dos seus desenhos pertencem à colecção do MOMA (Museu of Modern Art, Nova Iorque). “DJ Requests II”, uma outra obra desta série, está bem perto de nós – pertence à colecção de desenho Madeira Corporate Services, que esteve exposta no Museu da Cidade, em Lisboa, no início deste ano.

A partir de agora, todos os meses, vamos dar-vos uma obra de arte em forma de “poster”. Obras que já existem e nos acompanham, obras feitas propositadamente para este efeito. Aguardem e coleccionem nas paredes, entre
os discos ou no bolso. SP

Download PDF Flyer

Nº 10 / Julho + Agosto

Já cá está o 10. E vai deixar saudades…

Download: PDF Jornal nº10 e PDF Programação Julho/Agosto

Consultar Ficha Técnica

capa10

A última página?

capas-1Bem contadas devem ser mais de cento e cinquenta páginas onde couberam muitas dezenas de milhares de caracteres (e múltiplos caracteres). Mas nem sequer é uma questão de quantidade. Se tudo aconteceu nos últimos meses, eis a pausa auto contemplativa antes da metamorfose.

Na última página do primeiro número, num texto com o título “A primeira página”, tentávamos explicar a inexistência do Estatuto Editorial da praxe na publicação que então nascia (todos as partes “entre aspas” são cut&paste dessa “primeira página”). Remetia-se quem então o procurasse para a capa. Aí, do “lado direito do cabeçalho”, numa frase com cinco palavras, estava tudo dito. Citando uma entrevista do “inimitável e visionário Amadeo”, anunciávamos e assumíamos que “a nossa vida é toda para diante”. É nisso que acreditamos, com a mesma fúria, dez números e cento e vinte e quatro páginas depois. Mas o número 10 fecha um ciclo e, só por isso, apetece abrandar um instante para olhar para trás por cima do ombro e recapitular – sem vaidade mas com gozo e orgulho – parte do que foi impresso nos últimos dez meses.
Foi em Outubro (depois de um número 0 feito de excertos de dezanove edições de Blah Blah Blah e de um convite para uma festa) que, para marcar dez anos de Lux, se transformaram os flyers mutantes, feitos fanzine, feitos revista, num jornal: este, o jornal Lux Frágil, mesmo que, internamente, se continue a optar pelo termo pasquim (adicionando-lhe amiúde o termo anarca). Na altura, tal como agora, não sabíamos nada excepto duas ou três coisas muito simples e sinceras. Afinal, o que é, pode, ou deve ser o jornal de uma discoteca-bar-sala-de-espectáculos-acrescentem-o-que-quiserem? Ainda não sabemos, nem queremos saber. Queremos fazer. E fazemos. Para falar de música, de músicos, de DJs, de noite, de dança. De coisas de agora e de coisas de sempre. Coisas parvas e coisas sérias. Mentiras e verdades. Ficção e realidade, prosa e poesia, à mistura com algumas sugestões de tempero, existencial ou culinário, regado de questões, retóricas ou sentidas. Continue reading ‘A última página?’

Quimpostor

bussola

Vou-vos dizer a verdade: já não me apetece mentir.

Alguém tem o número do Lavoisier?
Ele tem Facebook?
Precisava de falar com ele.

Tenho vindo a perceber que começar de novo pode ser tão difícil como continuar. Começar de novo é cada vez mais difícil porque cada vez mais vamos sentindo que não há tempo para perder. Mas há. Todo o tempo é para perder. Acho mesmo que é a única maneira de ganhar. Parece que só entendemos a ideia de paciência quando passamos a olhar para ela como um luxo, quando percebemos que sempre devíamos ter sido pacientes. Aprendemos a esperar quando já não temos tanto tempo para o fazer.
Não existe começar de novo, existe começar outra vez. Mesmo que queiras, nunca viajas sem bagagem. Somos todos preciosos, porque somos todos passaportes palimpsestos – por baixo do carimbo de onde estamos estará sempre o carimbo de onde viemos e assim sucessivamente. Novos são os destinos. O viajante é todas a viagens que fez e que vão condicionar todas as outras viagens futuras, ao futuro. O importante é a viagem, porque todas as viagens são de voltar a casa, seja lá onde isso for, o que isso for, seja lá quem isso seja. Continue reading ‘Quimpostor’

As cabeças de Amadeo

amadeo-boina

Sabe a madrugada ventosa e terra húmida, a passeio sob os carvalhos e a galope de cavalo, Amadeo (1887-1918) sabe a “A” maiúsculo com um “e” encolhido a querer acrescentar e mais e ainda e depois e além disso. Segundo as leis da gravidade, devia o “e” descer pelas encostas do “A”, mas sobe a galope para ver o horizonte limpo e frio mal nasça o sol. Amadeo, “pintor avançado” ou “bizarro colorista”, sabe a começos, sabe de olhares primeiros e soube descobrir cores alegres e sinistras. Amadeo sabe bem.
Quando ainda não sabia reconhecer os nomes recortei de um jornal a minúscula reprodução da tela “Galgos”, da qual, por não saber de nomes, desconhecia a celebridade. Durante anos conservei por perto, em paredes e cadernos, aquele fragmento amarelado onde vibravam cores por adivinhar: o contraste preto e branco da atenção dos cães, a maquilhagem mascarada das lebres suspensas, as subtilezas das montanhas, um laranja a prometer luz, as massas do céu num verde que talvez seja azul a romper. Não sei agora quando a cor me atingiu, mas lembro-me de ter passado não há muito uma pequena vida face a face com a cena a dois palmos do chão vencendo o peso e a circunstância. Fui interrompido pelo segurança do museu. Desconheço o que me atraiu na imagem do velho jornal, mas posso inventar: foi a suspensão. Nada há de mais prometedor, e portanto adolescente, que esse exacto momento em que o olho se concentra num ponto, os músculos se retêm para nos manter suspensos, prestes a, uma vez marcados com as tatuagens do combate, nos atirarmos que a vida é toda para diante. Os galgos e as lebres, caçador e presa, estão ambos hipnotizados pelo momento adolescente da partida. Nunca uma cena parada teve tanto movimento, eis a verdadeira natureza morta. Amadeo sabe a pontos de partida e a vida pintou-o como adolescente, no instante em que se erguia para se atirar. Continue reading ‘As cabeças de Amadeo’

Fado marialva com óculos escuros e after-hours

Querida Lisboa,

A verdade, pelo menos agora, é que me pareceste, durante muito tempo, aquelas mulheres com quem não sabemos se nos apetece ir para a cama e casar no dia seguinte ou bater com a porta uma e outra vez até que não voltamos mais.

Talvez sinta esta inquietação porque nos abandonámos há alguns anos. Tu estavas certamente cansada das minhas críticas e das minhas ameaças de emigração. Eu, de malas feitas, apanhei o avião um dia depois do Natal, seguro de que não eras mais que uma cidade que repetia infinitamente o mês de Dezembro, enrolada numa película de chuva e povoada por pessoas de fazenda, com roupas estioladas – criaturas nómadas que viajam todos os dias entre uma máquina de fotocópias a ranger dos parafusos e um apartamento de três assoalhadas ao fim de duas horas de trânsito.
Mas agora, anos depois, regressei, aluguei uma casa com os sinos de uma igreja como banda sonora e começo a descobrir que não ficaste quieta, de socas e bata, apoiando as mamas no parapeito, olhando a vida dos outros na rua e tendo como única companhia o canário que apita dentro de uma gaiola. Em todo este tempo, deixámos de ser crianças envergonhadas, num recreio, que usam um pontapé nas canelas como artimanha de sedução. Estamos mais elaborados nos gestos e na eloquência. Bebemos gin com pepino. Conhecemos restaurantes secretos em outras cidades. Temos amigos estrangeiros. Mas estamos também mais directos ao assunto, mais crus, afinal, com esta idade, não andamos aqui para enganar ninguém. Continue reading ‘Fado marialva com óculos escuros e after-hours’

Filologia Livre da Pop do meu poluído imaginário

THE END,
JIM MORRISON,
1967

As coisas começaram como tudo começa. Uma pequena mensagem em stencil escrita na parede de pedra do lado interior do logradouro da minha sub-cave à Lapa. Reparei nela durante vários dias até me dar conta que não deveria estar ali, o que considerei como um nítido sinal da diminuição das minhas capacidades, um doce e adormecido embalar da perspicácia.
E isso era quase tão preocupante como a imagem que surgia, agora evidente, aos meus olhos tanto no seu significado como na sua forma. Era uma espécie de imagem de Cristo, semelhante à do sudário mas feita na pedra. Em vez de Cristo representado, estava eu no seu lugar, com coroa e tudo.
Fui mais uma vez traído pela minha própria soberba.
O facto de ter interrompido o afastamento dos grandes palcos mundiais da desencriptação para partilhar convosco neste jornal as minhas pequenas análises sobre a verdadeira verdade das grandes letras da pop, colocou de novo o foco de atenção sobre o perigo que representa alguém com os conhecimentos e a vontade de desmistificar as grandes construções mitológicas da actualidade.
Daí à alusão a um sr. peppas mártir, na forma de stencil urbano foi apenas um pulo por cima do meu muro.
Sei quem eles são, mas não vou dizer o seu nome. Primeiro, porque vocês ficariam a sabê-lo e obviamente passariam também a ser alvos preferenciais da fúria asséptica dos mestres mundiais da ilusão. Segundo, porque não se deve dar nome ao mal, para que ele não se sinta em casa.
Terceiro, porque no fim deste artigo vocês irão esquecer-me para sempre, pois encriptei neste texto um desmemoriador. Portanto, na verdade isto não será uma despedida dado que vocês nunca se lembrarão de alguma vez me ter lido. Continue reading ‘Filologia Livre da Pop do meu poluído imaginário’

O Outro

untitled

Capítulo anterior: Após várias investidas da Carina, Zé Miguel tem uma recaída e volta a dormir com ela. / Continua a dar-se com a Adriana e o Pedro, com quem planeia ir ao Sónar, em Barcelona. / Mas não é o único: a Tânia, a Carina e a amiga, o Nuno Paz e o poeta, cada um por si, tencionam ir ao Sónar. / Depois de uma noite no Lux, reencontra o poeta na varanda. (o capítulo anterior pode ser lido em blog.luxfragil.com)

Folhetim de Maria Antónia Oliveira & António Néu

Capítulo IX

“Illusion is the first of all pleasures.”

— Então, onde é que se meteram? Já estou na porta 10!
— Mas, ó Zé Miguel, ainda faltam duas horas, man, vou sair agora de casa!
— Ainda estás em casa?! Olha que perdemos o avião!
— Espera aí no bar, vai bebendo uma cervejinha…
Zé Miguel desligou, descontente com a demora do Pedro e da Adriana. Conformado, e com medo de parecer parolo (nunca tinha apanhado um avião), dirigiu-se ao bar próximo. A meio da segunda imperial, ouviu um sotaque brasileiro:
— Oi minino!!! Que é que cê está fazendo aqui? Zé Miguel, não é mesmo?
A um primeiro olhar, não reconheceu a cara sorridente e tumefacta que se chegava a ele. Sim, era mesmo ela! A Suely do Finalmente! Sorriu-lhe, um tanto embaraçado de a encontrar ali, de dia, com as maçãs do rosto a rebentar, de inchadas, e as longas pernas metidas nuns leggings de licra preta, muito discreta.
— Olá. Vou para Barcelona, para o Sónar. Sabes, o festival…
— Cê vai em Barcelona? Então vamos junto! Ai minino, cê sabe que eu agora vou tentar minha sorte em Barcelona! Aqui já não tava dando não. Tenho uma amiga lá, a Rancia de Jordânia… ela me propôs fazer um
showzinho na Discoteca Metro. Cê conhece? Todo o mundo conhece! É super-chique! E estão precisando lá de uma Cármen Miranda! O Tico-Tico tá Tá outra vez aqui O Tico-Tico tá comendo meu fubá O Tico-Tico tem, tem que se alimentar Que vá comer umas minhocas no pomar! Ahahahah, vai ser a maior gozação! Cê tem de ir ver, minino, vai amar!
Estupefacto, Zé Miguel olhava para ela, a fazer passos de dança miúdos em frente dele, enquanto cantava. O barman, que era brasileiro, piscava-lhe o olho e batia o ritmo com o shaker.
— Eh lá! Isto parece o Morocco Club! – Era a Adriana que chegava, curiosa e de olho brilhante.
Quando finalmente se apeou do autocarro na Praça da Catalunha e desceu as Ramblas, Zé Miguel ainda cantarolava O Tico-Tico ti O Tico-Tico tá, sob o olhar enternecido da Adriana, que tinha feito amizade instantânea com a Suely no avião – “Ai, esta tua amiga é o máximo! Onde se conheceram? Zé Miguel, tu és uma fonte de surpresas!…” Zé Miguel ficou contente.

Barcelona, segundo dia: Comprei um moleskine. A Adriana disse para eu fazer uma espécie de caderno de viagem, e ir escrevendo o que se passasse. Ela disse que era provável que me esquecesse do que ia viver, e também que eu fizesse sempre um esforço para ir registando.  Continue reading ‘O Outro’

A importância de ser: Matthew Dear

ad_mdear022

A música electrónica de dança não tem parado de mudar. Essa mudança decorre de alterações nos rumos estéticos e nos géneros, reflecte a simbiose com a brutal e imparável evolução tecnológica, abraça outras artes e pretende cada vez mais encenar-se em palco como um espectáculo completo. Mathew Dear/Audion e Will Calcutt trazem “Hecatomb” ao Lux.

Quem leu o jornal de Junho, terá reparado que na página três, se antecipavam alguns dos convidados deste mês. Ao alto, de lado naquela página, na companhia da Magda, do DJ Vibe, das quintas D.I.S.C.O.Texas, da Cama de Casal e do Carl Craig, podia ler-se “Dia 17: Matthew Dear/Audion”. Podemos desde já começar por editar uma errata e informar que, onde se lia “Dia 17: Matthew Dear/Audion”, deveria ler-se: “Dia 17: Matthew Dear/Audion/False/Jabberjaw”. Não se pode falar de Matthew Dear esquecendo parte dos seus alter-egos. É necessário conhecer as diferentes cores deste camaleão para lhe dar todo o valor.

Matthew Dear tem desde logo uma característica pouco vulgar nos produtores e DJs de música de dança: é tão aclamado no meio electrónico dos clubes, como nos palcos onde apresenta essa espécie de electro-pop cinza e romântico do último e muito elogiado disco “Asa Breed”, mais a série de remisturas que lhe sucederam. Só isso justifica que os elogios se estendam da imprensa de música de dança, à imprensa mais arty ou tipicamente rock, casos da Wire e da Rolling Stone. “Asa Breed” colocou Matthew Dear numa ponta desse território com fronteiras cada vez menos definidas que é a música electrónica, ao lado de Louderbach (de Gibby Miller e Troy Pierce, com disco recente editado pela M_nus) e fazendo lembrar nomes como Coil e Death in June, por mais insólito que isso possa parecer à primeira vista (ou audição). Continue reading ‘A importância de ser: Matthew Dear’

Oráculo 07/09

imagem-oraculo-111
Os homens são de curta memória, e às vezes tanto melhor para eles. Mas os deuses não. O Oráculo deixa-te aqui uma versão da História dos teus últimos meses, com uns pozinhos para o futuro.
Para além do habitual Signo Solar, lê também os do teu Ascendente e, se possível, da tua Lua, e depois faz a síntese. Assim terás um filme mais completo, porque se leres só o teu Signo talvez não te espelhe assim tanto. Podes saber estes dados astrológicos em www.astro.com, e depois volta cá. Recebe a tua história com um espírito aberto, e vais ver que és o teu próprio motivo de inspiração!
E agora, continuemos viagem. Hasta siempre, porque a vida é mesmo para diante.
1680 = 16+08 Ø = 24+ Ø = 02+04+ Ø = 06 + Ø

Continue reading ‘Oráculo 07/09′

DEMO

Não percas mais tempo, futuro Supernova™. Dirige-te calmamente a qualquer um dos bares do LUX com este texto e usa estes passwords de engate. Entrarás directamente no reino da Megalopsychia!
Engata…

1) alguém que às quatro da manhã começa a dar sinais de sono:
(pinta um bigode à Houdini no WC e andando de costas faz-te surgir no ‘destino’) Estava aqui a pensar… se não deveríamos sair da estética do aparecimento (lógica que estruturou toda a Arte nos últimos 2 000 anos) e entrar numa de estética de desaparecimento!

2) alguém que se destaca por estar a reflectir sobre problemas da contemporaneidade:
(arranja mentos e, mãos-largas, compra uma garrafa de coca-cola no bar) Eu sei o que estás a pensar. E tens razão. A economia europeia, e a mundial claro, atingiu os seus limites. Precisa de mais. Precisa de expansão. E há um nome para isso: Descobri Mentos (na Coca-Cola). Vai ser uma época explosiva. Tipo champagne mas na versão ciência-inútil que é tão característica da minha geração rasca. Vamos para a varanda? Continue reading ‘DEMO’

História das palavras trocada por miúdos

Aviso – o arrazoado que se segue é pouco católico e não possui qualquer costela criacionista.
No princípio era o verbo copular, isto para quem tirou medicina, ou o fazer (amor), se foi com paixão, ou o coitar, se foi por pena, ou o pinar, se foi em pleno Verão, ou o mocar, se foi num Alfa Romeo Spider ou o transar se houve samba envolvido. Mas também poderia ter sido o fornicar, o micar, o facturar, o trambicar, o polinizar, o quilhar, o pilar ou o pinocar, as variações são tantas quanto as posições. Palavra convidada – “pinocada”. Meninos e meninas, os verbos estão lançados, vamos agora dar os substantivos possíveis. Dizer simplesmente “dar uma” não nomeia, é batota e preguiçoso. “Dar uma trepa” leva-nos por caminhos demasiado verticais e ainda por cima o amor gosta de algemas, não de mosquetões. “Dar uma cambalhota” soa demasiado gimno-desportivo. “Dar uma trancada” será seguramente perigoso para qualquer ponta, especialmente as soltas. “Dar uma foda” é tão brejeiro que só funciona se houver dinheiro ou estivadores envolvidos. E, por último, os pobres coitados que quiserem “dar um penachado” vão parecer amantes de ornitologia com estranhos desejos inter-espécies. Resta-nos assim, por exibição e exclusão das partes, “dar uma pinocada”, expressão mais simpática, cómica e amena que as suas congéneres, tão descomplexada e inconsequente como um one-night stand, mais original do que “ir para a cama com” e menos infantil do que um “truca-truca”. Na dúvida, melhor que dizer é insinuar e, se todos os actos tiverem a cobertura certa de romantismo e crème, não será necessário medir as palavras e sim os corpos. Continue reading ‘História das palavras trocada por miúdos’

Ler, outra coisa

Da esquerda para a direita e em contínuo, de cima para baixo. Página a página, entre as mãos. Costumava ser assim, mas hoje com a proliferação de novos suportes de leitura, o acto de ler tem cada vez menos um princípio, meio e fim. Não há tempo para contemplações. É preciso velocidade. O título e esta “intro” estão garantidos…

Estas primeiras linhas também, quase de certeza. Acontece muitas vezes ir facilmente por aqui fora e ler mais uma ou duas linhas de texto, seguido, de forma contínua. É o princípio, está bem no topo da página, abaixo dos headers. Depois, se calhar, dou uma olhadela no lado esquerdo da coluna, primeiras palavras, aqui e ali, e leio mais um bocadinho na horizontal, porque até me interessa. Se não andei com o rato antes, faço-o agora e os meus olhos fazem uma vertical, pela esquerda, pelo resto do conteúdo. “Marcam-se” palavras, que é como quem diz, lêem-se palavras soltas do texto que nos parecem chave e pequenos conjuntos de palavras para obter um bocadinho mais de sentido. É preciso ser rápido e eficiente.
Ah, já percebi, isto deve ser… Há mais, espera, tem um vídeo, quanto tempo tem? Agora não. E a foto dele, então é este gajo. Estes links têm ar de serem bons, pronto é só para o site oficial. Que chatice estes gifs animados e pop-ups, adeus. Ui, espera lá, isto interessa-me. E pronto, já não estamos nesta página, abrimos outra tab, retomamos a “leitura”. Ler a totalidade de uma página digital, quanto mais se contiver muito texto, quase nunca acontece. Continue reading ‘Ler, outra coisa’

Começou a silly season

funny_684Há dias, ao desligar o telefone, depois de uma conversa com uma amiga minha, disse para mim próprio: pronto, começou a silly season!
Eu sabia que o mês de Agosto ainda vinha longe, mas o calor e as mudanças climatéricas têm efeitos estranhos nas cabeças das pessoas, e actualmente a silly season parece durar o ano todo.
Antigamente a “época tonta” estava reservada à segunda metade do Verão, altura do ano em que deputados e governantes iam a banhos, e os jornais sérios, porque ficavam sem notícias, se dedicavam à caça do fait-divers. Mas hoje, estes critérios deixaram de ter utilidade: os dias de calor são em Fevereiro, os deputados parecem estar sempre de férias, e os jornais não fazem outra coisa senão relatar faits-divers o ano todo. O meu cavalo faz acupunctura ou Fazer xixi no chuveiro faz bem ao planeta ou Se o seu cão fosse apanhado pedrado, você continuava amigo dele?, são agora exemplos de notícias de todos os dias. E não estou a inventar. Fui agora mesmo buscá-los à net a um site de um jornal de referência.
Portanto, uma vez que os indicadores tradicionais deixaram de funcionar, a questão que se põe é: como se determina o início da silly season? Será que alguém sabe? Continue reading ‘Começou a silly season’