Acaba o ano fiscal e impõem-se os impostos. O que tem de ser tem muita forca, desculpem, força. As estações também têm de mudar mas não há meio de começar a primavera. a boa vida que já fizemos por merecer, o calor ao qual, que arrepiados e de pingo no nariz, já ganhámos o direito, nunca mais chegam.
Já fizemos os deveres e agora queremos o direito à rua, de preferência com muito menos roupa. tem de ser, tem mesmo de ser. depois de queimar pestanas e teclas de calculadoras à volta do modelo 3, queremos o que temos direito, queremos calor para tirar a roupa, para nos tirar de casa. exigimos o direito a dançar e não fazer contas às horas para esquecer as horas que passamos a fazer as contas e todos os deveres.

TATJANA DOLL, “PICT_ISOTYPE_TANZ2/PICT_ISOTYPE_DANCE2”, 2009
Telas de grandes dimensões que mostram carros, camiões, aviões, comboios, barcos, contentores, sinais de trânsito, pictogramas.
Parecem enormes “billboards”. As telas são feitas com tinta de esmalte, bem brilhante, para reproduzir as figurações escolhidas. Os erros que
entretanto acontecem ao pintar, ficam por lá e são assumidos pela autora. A artista alemã Tatjana Doll (n.1970) utiliza um dicionário
visual urbano, a que estamos bem habituados, nas suas peças.
As pinturas de Doll têm sido expostas em locais como o Museu de Serralves, no Porto, o Museu de Arte Moderna, em Paris e o PS1/MoMa, em Nova Iorque. A artista está a preparar uma grande exposição para o Museu Wilhelm-Hack, na Alemanha.
A obra de arte que este mês aparece aqui em formato “poster” tem um título que nos remete para sistemas de numeração, e é mesmo essa a intenção da artista. O que vemos é-nos bem familiar – são os pictogramas, a sinalização universal, que nasceu pela mão do designer otto aicher, e foi feita para os Jogos Olímpicos de 1972. “Rapaz-e-rapariga-dançam” ou “sítio-onde-se-pode-dançar”, é essa a mensagem directa e simples. Um pictograma mais que apropriado para o nosso contexto. Já sabem o que têm a fazer.
SP
“ PICT_ISOTYPE_TANZ2/PICT_ISOTYPE_DANCE2”, 2009
300cm x 200cm, Enamel on canvas
Foto: Bernd Borchardt
Cortesia da artista e Cristina Guerra Contemporary Art
www.cristinaguerra.com
www.tatjanadoll.de
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Bem contadas devem ser mais de cento e cinquenta páginas onde couberam muitas dezenas de milhares de caracteres (e múltiplos caracteres). Mas nem sequer é uma questão de quantidade. Se tudo aconteceu nos últimos meses, eis a pausa auto contemplativa antes da metamorfose.



