Author Archive for Joaquim Antonio Rocha

Começou a silly season

funny_684Há dias, ao desligar o telefone, depois de uma conversa com uma amiga minha, disse para mim próprio: pronto, começou a silly season!
Eu sabia que o mês de Agosto ainda vinha longe, mas o calor e as mudanças climatéricas têm efeitos estranhos nas cabeças das pessoas, e actualmente a silly season parece durar o ano todo.
Antigamente a “época tonta” estava reservada à segunda metade do Verão, altura do ano em que deputados e governantes iam a banhos, e os jornais sérios, porque ficavam sem notícias, se dedicavam à caça do fait-divers. Mas hoje, estes critérios deixaram de ter utilidade: os dias de calor são em Fevereiro, os deputados parecem estar sempre de férias, e os jornais não fazem outra coisa senão relatar faits-divers o ano todo. O meu cavalo faz acupunctura ou Fazer xixi no chuveiro faz bem ao planeta ou Se o seu cão fosse apanhado pedrado, você continuava amigo dele?, são agora exemplos de notícias de todos os dias. E não estou a inventar. Fui agora mesmo buscá-los à net a um site de um jornal de referência.
Portanto, uma vez que os indicadores tradicionais deixaram de funcionar, a questão que se põe é: como se determina o início da silly season? Será que alguém sabe? Continue reading ‘Começou a silly season’

Estamos aqui para ser felizes

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Ser feliz é uma coisa que irrita muita gente. Ver alguém fazer por isso, irrita muito mais. O Huxley, por exemplo, dizia que podia simpatizar com a dor das outras pessoas, mas nunca com os seus prazeres, porque entendia haver qualquer coisa de extremamente aborrecido na felicidade alheia. 

Aborrecida ou não, a verdade é que a questão da felicidade sempre foi muito dramatizada e sempre conheceu inimigos. Ao longo dos tempos, foram vários aqueles que se esforçaram por demonstrar que a felicidade, especialmente no sentido hedonista e moderno do termo, não passava de um objectivo de vida errado e enganador. E mesmo aqueles que a defenderam, como os utilitaristas e os epicuristas, sempre fizeram questão de separar os prazeres superiores, os intelectuais, dos prazeres inferiores, os sensíveis: ser feliz sim, mas com método e moderação. 

Mais ou menos alheios a estas discussões filosóficas, a verdade é que os seres humanos, dos mais cultos aos mais ignorantes, sempre elegeram a felicidade como objectivo de vida. E ao longo da história foram desenvolvendo diversos métodos e fórmulas de a atingir. 

Mas a verdadeira mudança aconteceu com a Revolução Americana e com o afirmar do direito à felicidade como valor político. Depois disso, o mundo nunca mais foi igual. A ideia de que todos os homens têm direito ser felizes foi tão grande e tão fecunda, que acabou por inspirar todos os movimentos de libertação que se seguiram. Sem ela seria impossível imaginar o fim do colonialismo, da escravatura, do racismo ou mesmo descobrir um sentido para os movimentos que lutam contra a discriminação com base na religião, sexo ou orientação sexual. Se hoje vivemos todos um pouco melhor, muito se deve à ideia de felicidade e a todos os homens que souberam lutar por ela. Continue reading ‘Estamos aqui para ser felizes’

O optimismo doentio

Abusando do espaço que me é concedido neste jornal, decidi utilizar os quatro mil caracteres a que tenho direito todos os meses para desancar numa nova corrente de pensamento que cresce na proporção inversa dos índices de mercado das principais bolsas mundiais – o optimismo
doentio.

Longe de ser um fenómeno local, o optimismo doentio tem contornos de supra-estrutura ideológica que se propaga facilmente independentemente da idade, sexo, raça, religião ou classe social. Qual vírus da imunodeficiência do bom senso humano, o optimismo doentio é um mal transversal a todas as sociedades e está presente em todos os continentes, o que torna o fenómeno numa catástrofe a nível mundial. 

Antes de correr o risco de ser mal interpretado, vou aqui fazer uma declaração de interesses: eu sou um optimista e tenho para mim que a esperança é essencial à vida. Como seria possível viver se não acreditasse que o dia de amanhã vai ser melhor que o dia de hoje? Quem nos momentos difíceis me poderia servir de consolo, de alívio ou dar-me uma garantia de salvação? Quem nos melhores momentos me poderia inspirar a fazer coisas ainda melhores? Seria possível viver sem essa esperança? Pura e simplesmente não seria.

Depois disto, espero que não reste qualquer tipo de dúvidas. Não sou nem nunca fui um pessimista. Há muito que decidi responder àquilo que Camus identificou como a questão central da filosofia – “devo suicidar-me? “– com um valente NÃO e um sorriso franco nos lábios. Sim, acredito que há coisas pelas quais vale muito a pena viver e tu és uma delas, meu amor. Sim, sou um optimista. Um optimista apaixonado. Porém, consciente. Mas consciente de quê? Continue reading ‘O optimismo doentio’

O lado cor-de-rosa da história

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A história que vos quero contar é uma história de amor. E como todas as boas histórias de amor está repleta de motivações: tem ciúmes e traições, crimes de sangue e defesas de honra, vinganças, lutas pelo poder, e tem também uma cereja no topo do bolo: jogos de sedução entre homens musculados e com nomes estranhos. A história que vos vou contar é cor-de-rosa, é verdade, porém de um rosa choque. 

Convido-vos, por isso, a viajar do tempo. A andar uns séculos para trás. Vinte e seis, para ser mais preciso. Estamos em Atenas, em meados do séc. VI, e Cristo ainda não tinha andado pela terra, o que confere à história um grau de inocência difícil de compreender.

Por estes tempos Atenas era governada por dois tiranos – Hípias e o seu irmão Hiparco – sucessores e filhos de Pisístrato, homem que chegou ao poder pela força das armas e que introduziu a tirania como forma de governação da cidade.

Segundo testemunhos da época, seria

Hípias o homem responsável pelo poder, já que o seu irmão levava uma vida extravagante, regada com música, vinho e poesia, preferindo a vertigem do prazer a coisas como a obrigação do dever ou a responsabilidade do poder. 

Hiparco era um homem culto e a ele se deve o desenvolvimento das artes na cidade. Incentivou políticas de mecenato artístico e literário, rodeando-se na corte de poetas e músicos famosos, como Anacreonte,

Simónides e Laso. Hiparco era um tirano, mas um tirano sensível. Principalmente à beleza de jovens e corpulentos rapazes.  Continue reading ‘O lado cor-de-rosa da história’

A pega de Barcelos

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Entrevistas impossíveis por Joaquim António Rocha

 

Acusado de só entrevistar figuras estrangeiras, decidi começar 2009 por entrevistar aquele que é porventura um dos maiores símbolos do folclore nacional – o Galo de Barcelos. 

Quem me conhece sabe que sou pouco dado a folclores e que nutro pouca simpatia por símbolos nacionais. Sabe também que não sou muito amigo da espécie galinácea, embora já me tenha acontecido comer um franguito, aqui e ali, e até tenha gostado. 

Porém, esta era uma entrevista que se impunha. Contrariando o horóscopo chinês, 2008 não fora o ano do rato mas o ano do ganda-galo: começou com a crise dos cereais, passou pela crise petrolífera, seguiu pela crise financeira, para acabar com uma crise económica mundial. Maior galo era impossível, até porque os ratos ou abandonaram o navio ou foram presos. Mas adiante, porque isso agora também não interessa nada.

Havia, porém, uma coisa que me irritava no raio do bibelot: o facto de ele ser uma invenção do fascismo, um instrumento ideológico do Estado Novo, um souvenir de barro mal cozido ao serviço da “política do espírito” salazarista. 

Meio contrafeito, decidi ligar para Barcelos. Mas da primeira vez, não consegui falar com ele. Andava a brincar na neve que caíra no início de Janeiro:

— Sabe, temos de aproveitar – disse–me mais tarde – Nevar é uma coisa rara aqui em Barcelos. Mas agora com o aquecimento global a coisa tem-se tornado mais frequente. Por vezes até neva no Verão. Mas é mau para a hortaliça. Os grelos e os nabos não se dão bem com o frio. A neve queima tudo e nem erva nasce – justificou-se.

 

 

— Estou muito surpreendido – respondi-lhe – Pensei que os bibelots estivessem sempre no mesmo sítio e que os passeios fossem limitados. No máximo uma volta entre a mesa da cozinha, o topo do frigorífico e o cimo da televisão. Isto sempre com um naperonzito como fundo. Continue reading ‘A pega de Barcelos’

A rata do Mickey

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Depois d’A Cona de Picasso e d’As Mamas de Betty (alô Cotrim, daqui Rocha!), eis chegada a vez da rata mais conhecida e acarinhada do planeta ter neste jornal o seu devido destaque. Refiro-me não a Paris Hilton ou à já defunta Cicciolina, mas àquela que ficará para sempre conhecida como a Rata do Mickey – a Minnie.

A Minnie não é uma rata nova. Nascida em 1928, já passou ao longo dos seus oitenta anos por várias crises. A primeira foi logo nos anos 30, mas diz quem sabe que é uma coisa perfeitamente natural e que isso é o resultado do funcionamento do relógio biológico. Rata que é rata é como o capitalismo – volta e meia tem uma crise. Pelo menos é o que dizem os entendidos, porque eu, confesso, não percebo muito do assunto.

Mas a Minnie merece a minha atenção por outras razões. A verdade é que apesar de famosa e prezada por pessoas de todas as idades e sexos, a Minnie foi sempre uma rata preterida pelo seu companheiro Mickey, o que faz dela a rata mais mal fodida do planeta. Portanto, estando nós a viver a época natalícia, a minha atenção só poderia cair sobre alguém que tivesse sido humilhado, ofendido e, no caso, mal fodido. Mesmo que esse alguém fosse uma rata. Decidi por isso ligar-lhe.

Da primeira vez, não estava. Tinha saído para ir ao ginecologista. Mas da segunda, foi uma rata aos saltos de felicidade que confirmou a entrevista:

— Terei muito gosto – fez questão de referir – Mas tenho um pedido a fazer-lhe. 

— Claro, esteja à-vontade – respondi.

— Eu gostava de ser entrevistada no Memorial. Acha que é possível? Continue reading ‘A rata do Mickey’

Natal em família

Entrevistas impossíveis por Joaquim António Rocha

E eis, caro leitor, que chegamos à época do ano que mais se adequa ao espírito destas entrevistas – o Natal. Tal como tudo aquilo que por aqui escrevo, no Natal tudo é falso. Deliciosamente falso: o Pai Natal não existe, o menino Jesus também não, e o São Nicolau é mais um santo que faz umas coisas que carecem de credibilidade – milagres.

Não foi fácil, por isso, decidir qual dos três deveria entrevistar, e fui mesmo obrigado a uns momentos de reflexão: uma vez que eu não queria nada com santos, a escolha teria de ser feita entre o calaceiro do menino Jesus - sempre na palheta deitado e estendido - e esse velho representante da classe operária que, uma vez por ano, se vê obrigado a visitar cerca de 378 milhões de crianças, em 31 horas de trabalho, tempo de duração de uma noite de Natal, dada à existência de diferentes fusos horários. Mas dado que esta entrevista também não é para meninos, acabei por optar por entrevistar o Pai Natal, e deixar o Jesus, deitado e estendido, na palheta com a vaca e com o burro. O melhor seria não mexer no presépio.

Foi assim que regressei à infância e voltei a escrever ao Pai Natal, agora em versão electrónica, não para pedir brinquedos, mas uma entrevista. A resposta acabaria por chegar dias depois, também em versão electrónica, mas com encontro marcado na China, para onde se tinham mudado todas as fábricas de brinquedos da Lapónia. Mas que chatice! – pensei – Para a China?!!! Não estava nada a apetecer-me. Troca de e-mail para lá, troca de e-mail para cá, acabei por marcar encontro com o Pai Natal no Toys’R’Us de Alfragide. Sempre era mais perto. Continue reading ‘Natal em família’

A grande cabidela

Entrevistas Impossíveis de Joaquim António Rocha

Eram cinco da manhã e o meu telemóvel tocava insistentemente. Levantei-me, estremunhado, e apressei-me a atender a chamada. Do outro lado, alguém gritava:
— Mataram a galinha dos ovos de ouro! Mataram a galinha dos ovos de ouro! Mataram a galinha dos ovos de ouro!
Repetiram assim mesmo – três vezes. Eu, aturdido, dei dois passos atrás e sentei-me na beira da cama. Numa espécie de experiência do eterno retorno, acabava de confirmar a estranha tendência da humanidade para repetir a sua história no que ela tem de pior: acabar com a galinha dos ovos de ouro.
— Mas como? – perguntei eu ainda incrédulo – Foi com a gripe das aves? Bem que eu lhe disse para se agasalhar…
— Não, nada disso. Desta vez o H5N1 não teve nada a ver com o assunto. Consta que foi sobrealimentada pela mão invisível do mercado. Comeu tanto que rebentou. Aconteceu tudo no galinheiro de Wall
Street. Um espectáculo medonho. Sangue por todo o lado.

Assistimos hoje a várias tragédias humanas, mas os meus ouvidos eram demasiado frágeis para ouvir tamanha atrocidade. Eu estava destroçado. Continue reading ‘A grande cabidela’

No melhor pano cai o Noddy

Não foi fácil conseguir esta entrevista. Não só porque se trata de uma entrevista impossível, mas também porque o boneco andava muito atarefado com o início das aulas. “É a altura do ano em que tenho mais trabalho”. A proposição era facilmente verificável. Não havia hipermercado ou loja de brinquedos onde o gajo não estivesse. Eram prateleiras e prateleiras apinhadas com cadernos do Noddy, livros do Noddy, lápis do Noddy, canetas do Noddy, tudo-e-mais-alguma-coisa do Noddy. O boneco tinha o dom da ubiquidade e estava por todo o lado. 

Mas eu estava decidido. Era esta a figura a entrevistar. Precisava de saber que personagem era essa que andava a aliciar toda uma geração de futuros contribuintes. Seria uma boa influência? Tomaria drogas? Sairia à noite? Que locais frequentava? Iria à missa? Quais os seus gostos sexuais? Faria sexo em grupo? Que música ouvia? 

Decidi, por isso, insistir. E depois de muito lhe telefonar, acabei por conseguir a entrevista. Marcámos encontro no hiper da Amadora. O boneco andava em digressão pelo centros comerciais do país numa espécie de concentração tuning de jovens pais e carrinhos de bebé. “Encontro-me contigo na praça da alimentação”. Foi o combinado. Mas para grande espanto meu apareceu um boneco todo branco:

- Não era suposto usares umas roupas mais coloridas? – perguntei intrigado. 

- Sim, habitualmente uso umas roupas vermelhas e amarelas a condizer com o carro. Mas eu hoje sou o Noddy de pintar. É por isso que estou todo de branco.

- Ah!!! – exclamei eu – Por momentos pensei que vinhas de uma dessas festas de fim de Verão em que toda a gente se veste de branco. Mas afinal és apenas um boneco para miúdos que já pintam.

- Não, geralmente não vou a esse tipo festas. A não ser que haja crianças. Se houver crianças, é bem provável que me vejas por lá.

Este boneco começava a assustar-me. Tinha 47 anos, insistia em vestir-se de miúdo e conduzia um táxi amarelo, naquilo que mais parecia ser uma versão politicamente correcta do Robert De Niro em “Taxi Driver”. Continue reading ‘No melhor pano cai o Noddy’