Author Archive for Bacharel Paiva Boleu

História das palavras trocada por miúdos

Aviso – o arrazoado que se segue é pouco católico e não possui qualquer costela criacionista.
No princípio era o verbo copular, isto para quem tirou medicina, ou o fazer (amor), se foi com paixão, ou o coitar, se foi por pena, ou o pinar, se foi em pleno Verão, ou o mocar, se foi num Alfa Romeo Spider ou o transar se houve samba envolvido. Mas também poderia ter sido o fornicar, o micar, o facturar, o trambicar, o polinizar, o quilhar, o pilar ou o pinocar, as variações são tantas quanto as posições. Palavra convidada – “pinocada”. Meninos e meninas, os verbos estão lançados, vamos agora dar os substantivos possíveis. Dizer simplesmente “dar uma” não nomeia, é batota e preguiçoso. “Dar uma trepa” leva-nos por caminhos demasiado verticais e ainda por cima o amor gosta de algemas, não de mosquetões. “Dar uma cambalhota” soa demasiado gimno-desportivo. “Dar uma trancada” será seguramente perigoso para qualquer ponta, especialmente as soltas. “Dar uma foda” é tão brejeiro que só funciona se houver dinheiro ou estivadores envolvidos. E, por último, os pobres coitados que quiserem “dar um penachado” vão parecer amantes de ornitologia com estranhos desejos inter-espécies. Resta-nos assim, por exibição e exclusão das partes, “dar uma pinocada”, expressão mais simpática, cómica e amena que as suas congéneres, tão descomplexada e inconsequente como um one-night stand, mais original do que “ir para a cama com” e menos infantil do que um “truca-truca”. Na dúvida, melhor que dizer é insinuar e, se todos os actos tiverem a cobertura certa de romantismo e crème, não será necessário medir as palavras e sim os corpos. Continue reading ‘História das palavras trocada por miúdos’

História das palavras trocada por miúdos

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Há palavras que cheiram mal, tornam-se obsoletas e gangrenam semanticamente até se perderem em livros obscuros ou em pensamentos anacrónicos. Cheiram mal porque se tornam tão datadas como os poemas que escrevemos na adolescência e passam a partilhar o bafo fétido com as famigeradas onças, as tais que mantém pequenas quantidades de carne apodrecida entre os dentes. Palavra convidada – “Bafiento”. O adjectivo “bafiento” fede e nem todos o sabem. Certos jornalistas e incertos autores insistem na sua cruzada necrófila e, de quando em vez, lá encontram o bafio à meada e a palavra regressa do reino dos Fungi, usualmente para criticar um movimento, já por si moribundo. Romantismo, clericalismo, anarco-sindicalismo ou qualquer forma de idealismo. Senhores escribas, “bafiento” está na mesma categoria de “fornicação”, só é plausível quando usado por velhos eclesiásticos ou por jovens moças possuídas. Aliás, as expressões que classificam se algo é perene ou não, acabam por morder a própria língua e provar do próprio bolor. Bafiento é uma palavra bafienta, tal como démodé ficou démodé, out está out e arcaico é um termo que (ar)caiu definitivamente em desuso. Na árvore genealógica da podridão, “bafiento” vem de “bafio”, filho de “bafo” que tanto pode designar o cheiro desagradável que a boca expira, como, no sentido figurado, uma inspiração. O consenso entre filólogos é que “bafo” tem uma origem onomatopaica, sendo semelhante ao som do ar exalado pelos pulmões. PRRRT! BAFF!

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História das palavras trocada por miúdos

A ideia de descoberta é o “D” do ADN português, ao mesmo tempo essência
e maldição da nossa identidade. Camões incitou o rei nublado a partir e Pessoa falhou nas previsões meteorológicas para o regresso. Muitíssimo obrigado por eternizarem a espera, mas esqueçam, não vem ninguém, nem o Sebastião nem o Tom Cruise aos comandos de uma nave. E os monstros que nos poderiam amedrontar e empurrar para a frente, já todos petrificaram. Se a humanidade nos esqueceu, resta-nos a mundanidade. Vamos descobrir quem está na outra ponta do bar, do outro lado de um SMS ou na extremidade de uma hipótese.

Palavra convidada – “descobrir”. “Des-” é o prefixo, negação e confirmação da intensidade de “cobrir”. Descobrir é o oposto de cobrir. Descobrir é o processo, cobrir é o acto. Descobrir é o caminho, cobrir é o pelourinho. Descobrir
é a batalha, cobrir é a medalha. Descobrir é a imaginação a preencher os buracos daquilo que desconhece, cobrir
é preencher na realidade os buracos que se conhece. Cena 1 - Boy meets girl, conversa puxa travesseiro, um passeio pela Sintra romântica, enrolam-se devagarinho, sem quebrar a massa, até que a primeira trinca leva à segunda, tudo se precipita e segundos mais tarde, já não há nada para descobrir, a não ser a próxima descoberta. Kundera chama-
-lhe o culto do orgasmo: “eficácia contra a ociosidade; a redução do coito a um obstáculo que se deve ultrapassar o mais depressa possível para se chegar a uma explosão extática, único verdadeiro alvo do amor e do universo.” Ok, ok, é preciso ter cuidado para a conversa não cair no limbo do clube dos poetas mortos-vivos, ou pior, ganhar um tom de Sociedade Protectora dos Assexuados. A questão, afinal, é só uma: lentidão. Não se trata de cancelar os orgasmos, mas sim de adiá-los até serem insuportavelmente fantásticos. O que, dependendo dos boys e das girls, tanto pode durar um pequeno passo como uma ida à lua. Deambular em vez de perseguir, perguntar em vez de responder, saborear em vez de sorver,
s-o-l-e-t-r-a-r em vez de disparar. A caçada, enquanto processo, é mais interessante que meter uma bala no meio da cabeça da presa e pendurá-la, morta, à cintura. Sim, tem tudo a ver com pequenas (grandes) mortes. Porque é que Casablanca é o epíteto da história de amor? Porque “Teremos sempre Paris” é uma hipótese cristalizada no tempo, intocável e por isso imortal. Aqueles que se libertam do futuro, da meta e da espera, já não correm, deambulam e a cada passo inventam o caminho. E então, do outro lado do bar, de um SMS ou de uma hipótese, encontram alguém que, como eles, “possui a sabedoria da lentidão e maneja a técnica da demora.” Admirável Mundano Novo, levanta-te e caminha, mas pelo meio pergunta-te: porque é que descobrir não é o mesmo que desmontar?

História das palavras trocada por miúdos

Todas as conversas são boas conversas se pelo meio alguém disser psiché ou fetiche, palavras especialmente sensuais se proferidas a três milímetros do ouvido interno. Os psichés costumam ter espelho e uma inclinação regulável, informações que poderão revelar-se úteis no fim da noite. Mas deixemos os móveis da avó para outra história. Palavra convidada –

“Fetiche” Este é um vocábulo esquizofrénico que nasce factitius, artificial em latim, vem viver para Portugal onde adopta o nome feitiço, emigra para França onde passa a responder por fétiche e entretanto regressa a terras lusas sem acento e encharcado em perfume. O termo é lusitano por todos os poros, até porque a sua genealogia remonta ao tempo em que os portugueses andaram por África e se depararam com o culto algo obsessivo que os locais dedicavam a certos objectos, menosprezando a profusão de seios nus e luzidios. Mas o fetiche que realmente interessa
é universal e foi introduzido por Alfred Binet, um psicólogo auto-didacta, introvertido e com demasiado tempo nas mãos que o levou ainda a estudar o cérebro de jogadores de xadrez e a base do que viria a ser o teste de Q.I. Venha de lá então uma definição: fetichismo erótico consiste na excitação sexual direccionada para objectos ou partes do corpo que usualmente não são considerados sexuais. A parte, pelo todo, uma espécie de metonímia ao nível do desejo. Tão ridículo e engraçado como um cão que tenta cobrir a perna do seu dono. Continue reading ‘História das palavras trocada por miúdos’

História das Palavras Trocadas Por Miúdos

Palavra convidada – “Brutal”
“Brutal” é o novo “bestial” o que nos leva às traseiras da história. Primeiro vieram os protozoários, dos quais se destacou a amiba, rainha dos ambientes húmidos e pantanosos, reconhecida pela ausência de espinha dorsal e, ainda hoje, cerca de 500 milhões de anos depois, popular “petit nom” para atirar a deputados, autarcas e jogadores de futebol que viram as costas a um clube. Depois, já no final da primeira grande era geológica – o Paleozóico –, a vida animal evoluiu do grande paúl para a superfície terrestre, aparecendo os primeiros anfíbios, seres que também nunca mereceram muito respeito, especialmente os sapos entre a etnia cigana. Quase de seguida surgiram os répteis, outra espécie animal também associada à injúria, com especial destaque para as cobras. Desde então são costumeiros, entre especímenes femininos, chamamentos como “cascavel”, “cobra surucucu” ou simplesmente “venenosa”. Avançando pelo Mesozóico e Cenozóico, começam a surgir os mamíferos e posteriormente a diferença entre animais completamente selvagens e menos selvagens. Ursos e baleias mal imaginavam que um dia seriam associados a pessoas imbecis ou obesas. Os hominídeos foram fazendo o que puderam pela selecção natural, mas Darwin nunca chegou a agradecer a contribuição dos Homo antecessor, Homo habilis ou Homo erectus, figuras históricas apenas por terem ficado pelo caminho. A verdade é que os contemporâneos de Charles lhe chamaram macaco por muito menos. Verdade viperina é que os vitupérios só pioraram com a ideia de progresso / civilização, princípio essencial para um menosprezo de gabarito. Atrasado! Selvagem! Bárbaro! Campesino! Bruto! São insultos com o contraponto em: Sr. Sofisticado; Sr. Civilizado; Sr. Citadino e um Sr. Extremamente Educado. Ou mais singelamente: tu és um animal, enquanto eu sou um belo e sensível ser humano. Esta visão arrogante, paternalista e colonialista do mundo criou o mito do bonzinho selvagem, as Cruzadas, a antropologia e também uma fornicação inter-racial sem precedentes que teve como principal vantagem o surgimento de haitianas de dois metros de altura e olhos verdes e uma praia na Jamaica chamada James Bond. Entretanto, a civilização foi varrendo vales e planícies, destruindo tudo o que era virgem e endémico. Entre maridos, mulheres, colheres, facas e alguidares, imiscuiu-se a expressão “Tu és uma besta!” que, numa sexta-feira à noite, se transvestiu no elogioso “bestial”. E foi assim que o passei a usar, para meu usufruto adolescente, no final de espectáculos, concertos e linguados. Até que um dia, o bestial também passou à extinção, juntamente com as minhas borbulhas, e dei por mim a julgar que todos à minha volta se tinham transformado em beneficiários da A.P.A.V. constantemente com nódoas negras e bracinhos partidos. Altura em que pensei: é pá, brutal! Ao que o meu superego respondeu: Também tu, Brutus?

Bacharel Paiva Boléo

História das palavras trocada por miúdos

Miúdos, minudências, mesquinhices, meninices, ninharias, interstícios, entranhas da língua, do bucho e outras miudezas. 

É sobre a subtileza canalha das palavras gelatinosas e de expressões impressionistas que esta coluna irá tratar (não no sentido em que o Prof. Karamba trata, mas algo mais ao género reclinado do Prof. Júlio Machado Vaz). Porque as palavras são esguias e matreiras, hoje dizem uma coisa e amanhã dizem duas, neste contexto aplaudem, naquele arrasam. Cada mês surgirá um tema, uma vítima estraçalhada para sádico ver e estrangeiro aprender.

Não basta saber o padrão da moda, o designer que está a despontar, a droga que condiz com o tampo de sanita da discoteca ou o autor que fica bem debaixo da perna curta da mesinha de cabeceira. É preciso saber quais as palavras inaptas, secretas e non gratae. É preciso saber com quantas sílabas se constrói ou se enterra uma geração, que expressões abrem bocas e que gemidos fecham pernas. 

Esta é uma rua sésamo erecta, uma sublevação pelo português unplugged e contra o português correcto, um discorrer de ideias feitas e idealizações desfeitas, mais sobre saídas, do que entradas no dicionário. Aqui não se procura o acordo, encontra-se o grotesco dos costumes e dos jogos duplos, as vozes arranhadas pelo jargão e a quebra dos códigos que fazem de Camões mais jaz que Vaz. A minha, a tua, a nossa pátria é a bastardia, de raças, de sexos e de línguas. E se uns martelam na pedra a história oficial, já as ruas, as estivas, os analfabetos, os comentadores de plantão e os amantes incendiados escrevem a história não escrita, por vezes só vislumbrada de relance na ponta da língua, do pé ou de uma ponta-e-mola.

Palavra convidada este mês 

 

Não é bem uma palavra, é um sinal dos tempos entrecortados, um ponto negro e seco que quebra em casos de emergência ou necessidade, um ditador bruto, redondo, determinado, terminal a finalizar relações e orações, um convidado de último recurso escolhido em função da falta de espaço, um ser frustrante, pequenino, solitário, decisivo e conclusivo – o ponto final.

 

Bacharel Paiva Boléu