Author Archive for Quim Albergaria

Quimpostor

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Vou-vos dizer a verdade: já não me apetece mentir.

Alguém tem o número do Lavoisier?
Ele tem Facebook?
Precisava de falar com ele.

Tenho vindo a perceber que começar de novo pode ser tão difícil como continuar. Começar de novo é cada vez mais difícil porque cada vez mais vamos sentindo que não há tempo para perder. Mas há. Todo o tempo é para perder. Acho mesmo que é a única maneira de ganhar. Parece que só entendemos a ideia de paciência quando passamos a olhar para ela como um luxo, quando percebemos que sempre devíamos ter sido pacientes. Aprendemos a esperar quando já não temos tanto tempo para o fazer.
Não existe começar de novo, existe começar outra vez. Mesmo que queiras, nunca viajas sem bagagem. Somos todos preciosos, porque somos todos passaportes palimpsestos – por baixo do carimbo de onde estamos estará sempre o carimbo de onde viemos e assim sucessivamente. Novos são os destinos. O viajante é todas a viagens que fez e que vão condicionar todas as outras viagens futuras, ao futuro. O importante é a viagem, porque todas as viagens são de voltar a casa, seja lá onde isso for, o que isso for, seja lá quem isso seja. Continue reading ‘Quimpostor’

Quimpostor

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Vou-vos dizer a verdade: Eu minto.
 
Não quero ser derrotado, quero render-me.
Quando os corações velhos aprendem amores novos, o mundo recebe na cara cínica que tem, uma escarreta de esperança.
É bonito e corajoso, isto de amar outra vez.

Durante muito tempo pensei que o amor era um exercício de equilibrismo – bonito pelo desastre iminente, difícil por ser impossível o dar ser igual ao receber. Mudaram a minha ideia e a minha experiência. Não estou a aprender a amar de novo, estou a perceber outro amor. Desta vez não é dois contra o mundo, nem um a salvar o outro. Desta vez estou ligado, sem tratados e mesmo assim unido. Não estamos, somos juntos. E percebi agora que nenhum inglês poderia dizer assim este amor.

Já vos disse que sou Outro Romântico e que acredito que o amor se deve espalhar como manteiga. Ser um pinga-amor é mil vezes melhor do que ser um pinga-na-
-cueca. De que vale um amor guardado? O amor não vale mais por ser vintage, ou estar em mint condition. Ama tudo muito, ama tudo o que conseguires, sempre de peito escancarado. E isto é o que tenho vindo a perceber e a insistir em acreditar. Mas depois há o medo. Continue reading ‘Quimpostor’

Quimpostor

quimVou-vos dizer a 

verdade: eu minto.

Os mortos não contam estórias, são as estórias que nos mantêm vivos. O whisky ajuda, empurra, mas são as estórias que levantam. Tenho de me deixar de preocupar com a História e participar todo inteiro nas minhas estórias. O meu sítio é agora e aqui.

 

Verdade verdadinha, nasci para ser um pateta eloquente. Isto, isto tudo é respiração boca-a-boca à distância e visto daqui parece que nos estamos a beijar. Há os Românticos, os Novos Românticos, e agora o Outro Romântico. Sim, quero ser o vosso Outro, aquele que não assumem a ninguém que gostam, mas que secretamente vos faz borboletas no estômago e não vos deixa focar porque de repente estão demasiado vivos. Sabem como as avós passam dias a cozinhar só para ver o prazer que temos a comer? Eu é tipo isso, só que em pastiche libertino de referências culturais e ideias com o coração ao alto, com o coração aos berros, só para vos ver a sorrir e fazer-vos sentir menos sozinhos. Sou a power balad daquela festa de slows que cada vez que
a ouvem na M80, voltam a pensar “porque é que não a/o beijei?”.

Mas agora, calma. Tu, desliga e descansa. A coragem é um fungo e a força começa quando a quietude acaba. Por agora descansa e chora, que mal não faz. Eu quero dar-te coragem, quero que os meus ombros tenham o tamanho das mãos que precisam de um, porque o que digo precisa de ouvidos. Quase quase sempre, damos o que queremos receber.

 Agora, quero estórias.

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Quimpostor

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Vou-vos dizer a 

verdade: eu minto.

Querer saber ajuda a saber querer.

E só de bem querer conseguimos, vão ver.

 

Mas é um esforço.

Esforço para continuar com o mesmo entusiasmo com que encontrava revistas pornográficas no lixo ou discos de vinil que se revelavam frisbees perigosíssimos ou as cassetes que esventrava para ver as fitas voar. Nunca tive interesse em arrancar asas a moscas ou incendiar formigueiros. O meu interesse era o bom do lixo, a apropriação, transformar a merda em ouro. É dessa alquimia que vem o meu nome e o vosso. 

Mas quanto mais tempo vamos andar a remexer o lixo à procura do que não foi visto ainda? Quantas mais festas dos anos 80 vamos aguentar? Não estará a cultura do princípio do século XXI à beira de uma overdose de ironia? Já não chega de gozar com o facto de não fazermos ideia para onde isto vai? Quem vai ser o primeiro a dizer com as letras todas que há pelo menos 10 anos não aparece uma boa ideia para nos salvar? Onde está a canção que define a nossa geração?

Sabem que sou preguiçoso e não tenho método. Arrisco-me quase sempre com generalizações e afirmações universais, quase todas infundamentadas. Não me chamam Quimpostor à toa. Na verdade fui eu que me permiti essa libertinagem (já para não falar que ainda ninguém me pôs em causa, o que também diz muita coisa). E na boa tradição quimpostoriana vou lançar mais alguns atrevimentos para a mesa porque, acima de tudo, me diverte e entretém.

Ninguém está a tentar fazer uma afirmação que uma geração inteira possa usar. Ninguém está interessado em realmente perceber que tempos são estes. E porquê? Porque pelos vistos não há uma afirmação que valha a pena fazer. Não há uma conclusão colectiva à espera de ser verbalizada. Será? Talvez. O que eu vou percebendo é que a nossa geração são muitas gerações, o que torna muito mais difícil uni-las sobre uma única canção. Só assim se explica esta fuga para um novo psicadelismo chic, onde é fixe ser fora e estranho e não daqui. Ou o revivalismo em loop do que começou por ser um exercício de kitsch e nos foi transformando cada vez mais naquilo com o que gozamos. Estou a cuspir para o ar, contra o vento e para o prato onde como, porque me irrita profundamente perceber que a cultura que quisemos herdar na primeira década deste século é uma pastilha elástica já mastigada. Continue reading ‘Quimpostor’

Quimpostor

Vou-vos dizer a verdade: eu minto.

Ponto de situação.
Mentimos para sobreviver. É verdade, mentimos para esconder o que não queremos partilhar. Invejosos, com medo de não sermos nem especiais nem destinados, mentimos para não vivermos aquele sonho de estarmos nus no meio da escola. Inventamo-nos sempre, inventamo-nos tanto.
Assim, sobrevivemos a mais um Inverno, com todos os seus amuansos, pluviosas birrinhas e depressões climáticas. Sobrevivemos a mais um dia para os namorados e sobram agora os outros 364 para adormecer de pau feito e com o edredon entalado entre a pernas. E passámos um dos maiores testes do ano - mais um Carnaval, a grande celebração do ressabianço.
O Carnaval começou bem. Uma celebração pagã para afastar espíritos beras que avacalhavam as colheitas. Depois mafarricos mascarados utilizavam a ocasião para lavar roupa suja e fazerem justicinha. Agora, na versão moderna, temos em mãos uma espécie de tréguas da moralidade, onde todos podem afinal ser quem querem ser - Saiam meninos e meninas, por uns quantos dias não há apartheid. Isto tudo para termos umas poucas cidades do país cheias de cabeçudos e de uma das piores manifestações de humanidade de sempre — o Folião.
O Folião é uma unidade energética tão irrelevante como irritante, que se distingue por desperdiçar toda a sua energia em fingir ser uma coisa que não é. Congregam-se normalmente em volta de Zés Povinhos a mandar um manguito de cinco metros e com a Claúdia Raia e o Fernando Mendes a equilibrarem-se em cima do carro alegórico. Com o Folião, a única bomba que dá para fazer é uma bomba de mau cheiro. Pronto, não quero falar mais nisto.
Esta é uma época muito complicada para um mentiroso — é impossível saber quem está a falar verdade. O que é problemático, porque ninguém precisa mais de verdade que um mentiroso. O Carnaval, como o conhecemos hoje, é a celebração das máscaras, onde ninguém leva a mal quando somos e fazemos aquilo que queremos fazer e realmente ser. Desculpem, mas assim não vejo razão para esta festa. Esta frustração não merece aplausos nem confetti. Balões de água, sim.
O Cavaco tinha razão, o Carnaval não devia ser feriado. Mas ele tem uma agenda própria — é que ele não é de Loulé e vocês sabem o quanto determinam as forças de pressão (como o bairrismo) nos verdes anos de um adolescente algarvio com uma maneira duplamente esquisita de falar. Ele como ninguém, percebe que não se brinca às máscaras. Ou se é ou não se é.
O melhor momento da vida de uma máscara é quando ela cai e revela. A única coisa boa que uma máscara gera é a curiosidade. O único sentimento activo e criador que vem de uma máscara é a dúvida. E as certezas estão assentes precisamente em dúvidas. A sobrevivência é isso mesmo, defenderes as verdades que precisas, as mentiras necessárias para não desistires de ti. A negação, o escolher não ver é fundamental para sobreviver. Mas acreditar na mentira que inventaste para ti não é a mesma coisa do que fingires seres o que não és. Percebam, já bastam as máscaras que somos, as personas que assumimos, ainda vamos encher-nos de maquilhagem e dentes de plástico. Não acho necessário. Isto é uma festa podre, uma fraude, não existe.
Eu também não existo. Se eu não nascesse tinha de ser inventado. Bem, não só nasci como me inventei. Sou o gajo mais fixe que consigo ser e isso é uma vitória. Agora mascarar-me de dama antiga é um desprestígio ao trabalho que tenho vindo a fazer. Não se põe luvas para sentir. Não sais da sala para ficares mais próximo. Não a chamas pelo nome todo se queres que ela se sinta a coisa mais importante do mundo.
Viver mais e melhor é ter o mínimo de obstáculos entre ti e o que a vida te oferece. É promoveres-te à maravilha e seres jovem o máximo tempo possível.
É procurar um constante estado de iminência e viver num quase quase. Não me digam que não sentem isto. Há mais verdade no segundo antes de te vires do que em quatro anos de faculdade. Há mais propósito num abraço do que numa promoção. Os nossos papéis e estatutos não querem dizer nada quando estamos nus. Continue reading ‘Quimpostor’

Quimpostor

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Vou-vos dizer a verdade: eu minto.

Este é dedicado ao Hugo que fez
“O Elogio da Crise” o mês passado. Se não te importares, vou saltar para a caravana do optimismo com umas dicas minhas, ‘tá bem?

 

Têm olhado para Lisboa ultimamente? A cidade está de beicinho à Rão Kyao, acagaçada com 2009. O metro e as paragens de autocarro estão cheias de braços cruzados a dizer “assim não brinco”. O frio e a longa ressaca da passagem de ano são o passe-partout para a demonstração de um talento demasiado português mais uma vez revisitado – o sofrer por antecipação.

Parece que somos animais cada vez menos naturais e que a nossa lógica nos foi deixando estúpidos. Nunca as coisas nos definiram tanto nem nunca nos custou tanto a definir as coisas. Materialistas subjectivos? Simbolistas concretos? Ao que nós chegámos… estamos mesmo em crise.

Eu ainda vivo na cidade onde nasci e recuso-me a viver numa Lisboa enconada. Com todo o respeito ao Zé que anda lá fora a trabalhar por nós, eu não quero ser emigrante. Adoro Lisboa. Adoro ter fome às 23, procurar um restaurante e ler na porta encostada o mais belo dos dizeres: “Estamos Abertos”. E é exactamente este espírito que mostra o melhor da alma de Lisboa. É isso que quero ver pendurado no Cristo Rei – “Estamos Abertos”.

Não sou político, puta, padre, psicólogo nem passador. Pergunto-me o que posso eu fazer para animar e levantar o espírito dos meus concidadãos. Que tenho eu que possa partilhar com os lisboetas para voltar a alinhar com o Tejo os narizes alfacinhas? A calçada é linda mas “a nossa vida é toda para diante”.

As gajas falam pelos cotovelos mas a cidades falam pelas paredes. E nos primeiros dias de Janeiro recebi o maior dos elogios que qualquer pessoa que brinca às ideias e às palavras pode receber – fui citado numa parede de casa de banho num bar do Bairro Alto. Muito honestamente, que se foda o Nobel! Esta é a derradeira palmadinha nas costas. Muito Obrigado. Obrigado por acharem a minha treta útil ou mesmo que serve algum propósito. E foi com este endosso que percebi qual o meu contributo para levantar os ânimos por aqui. 

Quero que me mamem na TRETA.

Vou-vos continuar a dar TRETA porque acredito na caramelice universal das verdades demasiado evidentes para parecerem verdade. É TRETA que tenho para vocês, primeiro porque é o que eu sei fazer melhor e depois porque estou mesmo convencido que três aforismos bem metidos podem ajudar Lisboa a voltar a ser uma cidade aberta. Aqui vão, usem-nos bem. Continue reading ‘Quimpostor’

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As palavras estão cansadas mas eu não. 

Pensem bem: são as mesmas palavras desde sempre para ajudar gerações umas a seguir às outras de jovens humanos que sentem que os seus problemas são o eixo e satélite de tudo. É o mesmo vocabulário que é usado desde que é vocabulário, para exprimir a ânsia de querer ser amado, o vazio irritante de adormecer mais uma noite sozinho e a falta de ideias perante mais uma erecção.

Falava há uns dias atrás com a minha ex-namorada e actual bff (best friend forever - não só sou progressivo como fui educado por mulheres) e ela dizia-me que sim que sou muito engraçado, mas que se me sentisse mais confiante com o meu aspecto seria mais atraente. Sim, na verdade uma coisa em que sou bom é em não me levar a sério, é a gozar comigo – isto como entretenimento providenciado a outros e como uma ocupação privada e bastante manual. Mas é nesta bivalência que jaz uma dicotomia por si só bastante hilariante – à medida que as punhetas vão perdendo a piada, mais material tenho para vos entreter aqui. Eu sei que já disse isto antes, mas há muita graça na desgraça.

Atenção, pára tudo! Não quero mesmo transformar isto num exercício de coitadinhismo português. Onde eu quero mesmo chegar, o que quero mesmo dizer, é que até eu já estou farto de mim, da minha cosmologia egocêntrica e das minhas auto-depreciativas e exibicionistas masturbações emocionais. Já não há cu para o Quim, esse impostor.

Posso no entanto, no espírito da época, oferecer-vos uma coisa. Algo útil, uma ferramenta para viver melhor. Um facilitador de escolha, um cristalizador de personalidade, um comprimido ideal para serem mais vocês. Uma mentira para soar a verdade entre copos e outras drogas. Um barrete de salão para serem o centro da festa de natal da empresa ou para animarem o reveillon quando a conversa for dar às resoluções de ano novo, esse logro lavado a champanhe e abafado com passas. Vou-vos oferecer o que todas as ideologias ofereceram até agora, mas sem os altos níveis de compromisso. Para vocês, agora e só aqui, vou dividir o mundo em dois.  Continue reading ‘Quimpostor’

Quimpostor

Vou-vos dizer a verdade: eu minto.

Estou pronto. Estou pronto. Estou pronto. Estou pronto para começar a sentir-me satisfeito. Estava a gozar, não estou nada. Ser um humano a querer ser feliz é como andar de bmx – o fixe são as derrapagens, o vento na cara, os saltos, andar rápido, os pés presos na cremalheira e a surpresa ao fim da curva. Bem-vindos, é um novo dia e o Quim volta a mentir.

Finalmente já tenho o meu gira-discos a funcionar e estou obviamente a compensar os meus discos e a passar mais tempo em casa. É mesmo bom poder passar tempo de qualidade com as minhas colecções quase completas de Fleetwood Mac, Cindy Lauper e Fucked Up. Name dropping à parte, um destes fins de tarde ou princípios de noite (o Inverno confunde-me) recebo um telefonema. Era um daqueles telefonemas de levar o comum dos mortais à demência, daqueles que provocam calvície automática. Era um daqueles telefonemas que as centrais telefónicas todas informatizadas das empresas de telemarketing fazem para saberem a que horas é que estás em casa. Era um daqueles telefonemas para desligar logo, mas não foi isso que eu fiz.

Do outro lado, um quase silêncio, uma ligeira estática e mais nada, som nenhum. “Quem é? Sim? Quem é? Quem é?!” Podia ter começado às caralhadas e desatado num parkour linguístico por todo o meu léxico de rua, mas não. Tinha tudo para me irritar, mas mantive-me calmo. Senti que estava a ser ouvido, sem condescendências nem falsas intenções. O Universo tinha ligado a querer saber de mim. Continue reading ‘Quimpostor’

Quimpostor

Vou-vos dizer a verdade: eu minto.

 

Vocês não têm culpa nenhuma, eu é que não quero gastar dinheiro em terapia. Estou com uma pequena crise de identidade, e resolvi trazê-las – a crise e a identidade - para a praça pública. Isto ajuda-me. Se vos ajudar a vocês, nem que seja a passar o tempo, melhor ainda. 

Quero ser como o Nélson Ned, o pequeno gigante da canção brasileira, o anão romântico, aquele que tem o coração do tamanho do corpo. Quero mesmo que o meu coração ocupe o meu corpo todo. Quero isso mas não quero aquilo da honestidade. Para deixar o meu coração ocupar o meu corpo todo, tenho de mudar, muitas vezes, harmónica, dissonante, violenta e gentilmente. 

Para mudar, preciso de acreditar numa nova verdade para mim, em mim. O que quer dizer que a minha anterior verdade deixa de o ser. Mas foi sempre assim, crescer tem sido deixar para trás um rasto de mentiras com que me dei bem. Ser honesto é não ter problemas em aceitar que a verdade é descartável. A verdade é hipócrita.  Continue reading ‘Quimpostor’