Author Archive for Joao Paulo Cotrim

As cabeças de Amadeo

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Sabe a madrugada ventosa e terra húmida, a passeio sob os carvalhos e a galope de cavalo, Amadeo (1887-1918) sabe a “A” maiúsculo com um “e” encolhido a querer acrescentar e mais e ainda e depois e além disso. Segundo as leis da gravidade, devia o “e” descer pelas encostas do “A”, mas sobe a galope para ver o horizonte limpo e frio mal nasça o sol. Amadeo, “pintor avançado” ou “bizarro colorista”, sabe a começos, sabe de olhares primeiros e soube descobrir cores alegres e sinistras. Amadeo sabe bem.
Quando ainda não sabia reconhecer os nomes recortei de um jornal a minúscula reprodução da tela “Galgos”, da qual, por não saber de nomes, desconhecia a celebridade. Durante anos conservei por perto, em paredes e cadernos, aquele fragmento amarelado onde vibravam cores por adivinhar: o contraste preto e branco da atenção dos cães, a maquilhagem mascarada das lebres suspensas, as subtilezas das montanhas, um laranja a prometer luz, as massas do céu num verde que talvez seja azul a romper. Não sei agora quando a cor me atingiu, mas lembro-me de ter passado não há muito uma pequena vida face a face com a cena a dois palmos do chão vencendo o peso e a circunstância. Fui interrompido pelo segurança do museu. Desconheço o que me atraiu na imagem do velho jornal, mas posso inventar: foi a suspensão. Nada há de mais prometedor, e portanto adolescente, que esse exacto momento em que o olho se concentra num ponto, os músculos se retêm para nos manter suspensos, prestes a, uma vez marcados com as tatuagens do combate, nos atirarmos que a vida é toda para diante. Os galgos e as lebres, caçador e presa, estão ambos hipnotizados pelo momento adolescente da partida. Nunca uma cena parada teve tanto movimento, eis a verdadeira natureza morta. Amadeo sabe a pontos de partida e a vida pintou-o como adolescente, no instante em que se erguia para se atirar. Continue reading ‘As cabeças de Amadeo’

Os bigodes de Bordalo

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No grande teatro em que soube transfigurar a sua vida, Rafael Bordalo Pinheiro (1846-1905) buscou sempre belas companhias. Não digo agora as amorosas, as da beleza, as da amizade. Nem as míticas de povo ou de república. No grande circo em que foi trapezista e apresentador, funâmbulo e cuspidor de fogo, palhaço e devorador de facas, fez-se sempre acompanhar, qual domador, de infindável lista de seres vivos, concretos e palpáveis ou fantasistas e delirantes. Neles encontrou beleza, amizade e mundo. Reproduzindo os sussurros contados da noite dos tempos, os seres de Bordalo ora vagueavam em preguiça naturalista para criar ambiente, ora assumiam características que comentavam esta ou aquela humana figura. Antes da política ser porca amamentando leitões, desfilaram, saídos da sua pena, cães e ratazanas, jacarés e tigres, pavões e bois, macacos e elefantes, burros e aranhas, carochinhas e ursos, patos e cágados, até micróbios, sem esquecer dragões. Neste íntimo bestiário, destaca-se a negro bem tintado sua excelência o gato.

Nas páginas de Bordalo, desconfio bem que da primeira à última, há pêlo de gato. De início, são apenas companhia para vadios. Românticos ou nem tanto, fazem-se sinal de pobreza, de rua, de libertário e infindável passeio. São parte da paisagem nos telhados. Além da elegância, da desregrada sexualidade, da liberdade e da viagem, aos olhos de Bordalo possuem a notável capacidade de se assanharem: de se abrirem em arco, crescendo e bufando, projectando garras a ponto de se tornarem temíveis. Por isto ou aquilo, por medo ou afirmação, por causa do cio ou sobrevivência. Assim como modo de ser ou projecto de vida.  Continue reading ‘Os bigodes de Bordalo’

A voz de Cesariny

Algumas figuras crescem de modo assustador até se tornarem lugares. Pode chegar-se a Cesariny de muitas maneiras, mas a mais absorvente e nacional não haja dúvida que será esperar sentado que nos atinja de um golpe. Países há onde mar e mar os fazem ir e voltar, e só isso explica que haja países a dar a volta ao mundo atropelando escolhos e tédio e mortes.
Movem-se triturando navios de espelhos, com um enigma no lugar do coração, olhos de ver ao infinitamente perto e ao astronomicamente longe, degraus só de subir e uma varanda para os abismos. Transportam o perfume acre da fruta próxima, o restolhar surpresa dos pássaros exóticos e a macia potência do felino enrolado em si.
Cesariny vem de um tempo em que viver era rasgar possibilidades, Mário, e as contas não foram ainda feitas, de Vasconcelos, pelo que não sabemos quanto lhe devemos em desejo e ventania, em confusão e lucidez, em verticalidade e camisolas de alças, inteireza e veludo com nódoas. Afiou cada âncora como palito, de maneira que os dentes acabaram por se tornar estrelas. Lugares irrequietos onde só se vislumbram regressos, como este, fazem–se difíceis de atracar aos mapas e só com muita sorte e acaso se conseguem indicações capazes de levar o viajante ao encontro da sua perdição, aquela que buscamos com íntimo desespero ao fugir-lhe. Noite e dia, trabalham algures os pianos escravos a escrever no chão com navalhas as maldades, que são outros tantos caminhos. Esta personalidade geográfica caracteriza-se pela aguda magreza que explode mais tarde, por vezes antes, em largueza de vistas. Um passeio de domingo de manhã pelas costelas ou uma descida perigosa aos artelhos justifica-se com tanta urgência como um assalto crepuscular ao museu de artes antigas marciais e fonéticas. O mergulho na piscina de sangue garante uma juventude tão eterna como o vibrato sustenido do tenor mais tenaz. Continue reading ‘A voz de Cesariny’

As rugas de Chet

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O trompete diz assim na sua língua líquida: 

bora perdermo-nos

bute desfazermo-nos

anda daí

dá-me a mão

larga-me da mão

aproveita a onda

contra a corrente

apesar dela 

vamos 

atira-te.

 

Se alguma coisa faz o trombone é perturbar a pontuação, ali a meio da voz, mais do que minúscula, antes da letra grande, quase no crepúsculo, afirmando o incerto, pisando com força no pântano, de corpo levantado fazendo do burocrático despacho um ríspido poema capaz de agoniar. Difícil?, não: jazz. Pontuado por dedos que carregam o sopro, pulmão empurrando o silêncio para a melodia, a melodia das palmeiras que se vergam ao vento quente, a melodia da noite que se estende envolvendo cada gesto cada coisa na melancolia, a melodia da súplica desesperada e atirada para trás dos cabelos longos ao vento (no descapotável, sobre a púbis desnuda). Não falo já do instrumento, mas de Chet Baker, o suave que perdeu os dentes para melhor fundir os lábios ao metal, bem sei que a razão foi outra e sem dentes não se toca, mas faz sentido imaginar o anjo malicioso transmudado em instrumento e melodia, que o mesmo é dizer sombra na bochecha.  Continue reading ‘As rugas de Chet’

As mamas de Betty

Não teria sido necessário, mas está bem de ver que a máquina fotográfica foi inventada para isto e só para isso. Ainda que fotografasse a árvore, a rua, o navio, era o desejo que a objectiva procurava, despia, fixava. Fotografias a sério, só as de Bettie Page, a rapariga norte-americana que viverá ao nosso lado para sempre com sangue índio, a professora que trocou o ensino da língua pelo adestrar das carnes, que continuou a ir à missa aos domingos, não sem que o ritual aos sábados a despisse para a vestir de cabedais e chicote. 

Escrito a luz, ressurgindo no escuro de químicas misteriosas, todo o processo diz respeito a esta fêmea que queria ser o que nunca chegou a ser, mas acabou sendo bastante mais. Desejava o amor, e até casou com um marinheiro, mas acabou catequista de fundamentalismos bacocos. Desejava ser actriz, mas foi apalpada por Howard Hughes. Foi filmada uns poucos minutos, é verdade, mas continua a interpretar os mais selvagens dos sonhos, como mais um electrodoméstico na década que inventou o bem-estar caseiro. Na superfície de cetim das cortinas, nas meias de renda, nos bikinis rasgados a fingir de selva, nos vestidos de noite, nas correias do bondage, nos cones com franjas de tapar os mamilos, nas máquinas de esticar e pendurar para melhor açoitar, nestes detalhes se encontra a sociedade que quer muito, que quer tudo em cores saturadas: gastar-se, consumir-se, arder. Sociedade puritana e sexy como uma pele nívea, que de tão recalcada aspira à perdição. Continue reading ‘As mamas de Betty’

A cona de Picasso

Mal o mundo suspire de cansaço, eis a hora certa. Pouse-se o rosto na coxa como um cair de tarde e admire-se. Não basta sonhá-la, como se nunca tivesse existido; não interessa invocá-la, resgatando-a aos confins da memória ou às páginas de um livro; não serve sequer vê-la: temos que a dizer, devemos escrevê-la. Só assim entramos nela verdadeiramente. 

Ora parecendo que o pintor possui bastantes, algumas até emprestadas, necessário se torna sacrificar ao menos uma vida para encontrar a que nos explicará a humidade e as palavras. Pode esconder-se num triângulo colorido que mija um oceano ou naquele leão de juba negra com um único olho, mas são apenas faces, lados de um cubo que roda em vertigem para nos oferecer enganos, tentações, delícias, horrores. 

Por exemplo. As gigantescas, de mãos rudes abrindo sucessivas camadas ovais, parecem diamantes por polir, mas são entradas para o labirinto. Outras que parecem rodeadas de pequenas labaredas, de fósforos moles, fingem-se de sóis para falar de amor. Não desgosto das que se vestem de nuvem, mas a sua macieza contém o perfume de lugares quentes e secos, onde se torna difícil respirar e plantar flores. As que surgem como traço apenas a rasgar o triângulo das coxas fazem as vezes do sussurro antes do desmaio, da queda: “estás bem? Não!” E eis-nos no chão. A seta indica o que nos aguarda, a terra e a morte. Estes sinais possuem o calor da vida, mas não esquecem a frieza da morte, seja de que tamanho for, pequena ou em por isso. Continue reading ‘A cona de Picasso’