Author Archive for Susana Pomba

Ler, outra coisa

Da esquerda para a direita e em contínuo, de cima para baixo. Página a página, entre as mãos. Costumava ser assim, mas hoje com a proliferação de novos suportes de leitura, o acto de ler tem cada vez menos um princípio, meio e fim. Não há tempo para contemplações. É preciso velocidade. O título e esta “intro” estão garantidos…

Estas primeiras linhas também, quase de certeza. Acontece muitas vezes ir facilmente por aqui fora e ler mais uma ou duas linhas de texto, seguido, de forma contínua. É o princípio, está bem no topo da página, abaixo dos headers. Depois, se calhar, dou uma olhadela no lado esquerdo da coluna, primeiras palavras, aqui e ali, e leio mais um bocadinho na horizontal, porque até me interessa. Se não andei com o rato antes, faço-o agora e os meus olhos fazem uma vertical, pela esquerda, pelo resto do conteúdo. “Marcam-se” palavras, que é como quem diz, lêem-se palavras soltas do texto que nos parecem chave e pequenos conjuntos de palavras para obter um bocadinho mais de sentido. É preciso ser rápido e eficiente.
Ah, já percebi, isto deve ser… Há mais, espera, tem um vídeo, quanto tempo tem? Agora não. E a foto dele, então é este gajo. Estes links têm ar de serem bons, pronto é só para o site oficial. Que chatice estes gifs animados e pop-ups, adeus. Ui, espera lá, isto interessa-me. E pronto, já não estamos nesta página, abrimos outra tab, retomamos a “leitura”. Ler a totalidade de uma página digital, quanto mais se contiver muito texto, quase nunca acontece. Continue reading ‘Ler, outra coisa’

The Subs

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Shhh. São um segredo bem guardado, subterrâneo, para conhecedores convictos. Isto nos dias que correm é uma verdadeira proeza. Estamos todos à espera que rebentem e aqui por estas bandas acreditamos que vai ser agora, já. Os The Subs têm nome de trio duvidoso de outras décadas mas afinal descobrimos que são três, sim, mas nada típicos, pois. Nos concertos, Wiebe Loccufier aka Tonic (do DJ-duo Starski & Tonic), Stefan Bracke aka l’entrepreneur (dos Foxylane) e Jeroen De Pessemier aka Papillon, são literalmente dois-DJs-e-um-microfone–e-sintetizador. Estes rapazes belgas não se escondem por trás de laptops. Começaram com “Kiss my Trance”, uma piada que se tornou um hit, e “Subculture” é o disco de estreia. Acontecem coisas algo estranhas nos concertos dos The Subs. E mais não digo, toca a pesquisar. Ah! E eles não tem medo nenhum dos Dire Straits.

Direito de Resposta

Com o título “Quimpostor” é publicada, neste jornal Lux Frágil de Abril de 2009, uma crónica que mostra um desalento clinicamente grave que é urgente curar e não propagar. Tão urgente que achei necessário pedir ao autor a leitura antecipada do seu texto para que pudesse exercer o meu direito de resposta na mesma edição. Para que fosse possível estar lado a lado, muito perto, partilhar as mesmas páginas. Tal era a urgência. 

Há textos que lemos e que nos enervam. Fazem-nos retorquir coisas em voz alta para uma superfície plana colocada em frente, ou ligeiramente abaixo da nossa cara. Esta acção é genericamente descrita desta maneira - “falar sozinho”. Toda a espécie de frases e interjeições podem ecoar pelas paredes até nos apercebermos. Mas apenas por breves segundos. Porque é o tempo que perdemos a falar sozinhos que define o nosso grau de loucura. Aparentemente. O autor do texto em questão, um amigo, Joaquim, deve falar muito sozinho. 

É jovem, tem um novo olhar sobre o mundo mas ainda assim deambula por perguntas velhas e desânimos dominadores. Tão dominadores que o levaram a sentar-se, a concentrar-se e a escrever um texto que pergunta, páginas tantas, “Onde está a canção que define a nossa geração?”. Amigo Quim, permita–me que o trate assim, de onde vem esse desgosto que lhe corta a visão e a capacidade de se aperceber que mesmo sendo muita (e muita de gosto duvidoso, eu sei), a produção de canções dos nossos dias vai, com certeza, dar um valente molho de “temas” que irão marcar a época em que vivemos? E, se não estou muito enganada, o próprio amigo Quim contribui, escrevendo, tocando, gesticulando, dando saltinhos, berrando para um microfone, e fazendo do mesmo ventoinha mecânica em repetidos movimentos dinâmicos, para a produção dessa mesma massa global de criação musical. 

Amigo Quim, por favor não fique velho antes do tempo. Continue reading ‘Direito de Resposta’

A arte da fuga

O que andam os portugueses a fazer fora do país

 
Pedro Moura
Vera Mantero, Miguel Pereira
Lúcia Prancha
Pedro Alfacinha
Isabel Carlos
João Maria Gusmão e Pedro Paiva

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autoKratz

A Kitsuné criou só para eles, capa a capa, a história de uma espécie de empresa farmacêutica multinacional que clona apenas o DNA dos dois “autocratas” e vai criando um universo paralelo. O último vídeo da banda, “Stay The Same”, é uma animação com uma parafernália de galinhas, pintos, pombos, raposas, ratos, vivendas, prédios, seres humanos e… a Marilyn Monroe. Mas do que eles gostam mesmo, como qualquer banda rock, perdão, electro, é de tocar ao vivo. A dureza dos temas dos autoKratz toma o seu verdadeiro significado quando suada no escuro com luzes intermitentes e saltos apoiados no colega da frente. E Russell Crank e David Cox acompanham pulando insistentemente com o público, ao pé de duas mesinhas com laptops, como pódios da sua autocracia em dupla.

Era de um bom título que eu precisava

img_8198Podia começar este texto a descrever as coisas que tenho à minha volta. E não estou a falar das colunas e colunas de texto dos caros colegas que me rodeiam nesta página, na anterior e na que se segue. Estou a falar do que tenho em cima da mesa neste momento em que escrevo. A marca do computador em que estou a teclar.
A sujidade que se acumula em determinadas zonas do tampo. Se bebo quantidades impressionantes de água ou qualquer outro líquido. Ou se olho para o ecrã a mandar fumo pela boca, ridícula, como estrela de film noir a reflectir olhando para o infinito. E do tempo que me levou a começar este texto, do quão atrasada estou, ou de como me consigo sempre atrasar um bocadinho mais. Depois podia dizer que escrevo numa secretária comprada não sei onde, num sítio exótico, e como os meus horários de trabalho são rigorosos e como existem animais mais ou menos silenciosos, que não são cães nem gatos, que passeiam rasteiros ao chão.
Antes de me sentar aqui hoje dei-me ao trabalho de reunir todas as revistas Time Out lisboeta com a coluna “Como Eu Escrevo” na secção de Livros. Não sai todas as semanas, é só de vez em quando. Isto deu um bom molho de revistas em cima do repousa-pés, todas com o seu respectivo post-it rosa forte a marcar a respectiva página. Dei-me também ao trabalho de ir procurar na versão inglesa, a “original”, a mesma coluna e de tentar perceber quando foi introduzida na revista. Depois, ainda fui “printar” todos os textos da rubrica “writer’s rooms” do jornal The Guardian. E depois de ler tudo de enfiada, achei que devia parar um bocadinho. Deve ter sido por isso que me atrasei. Continue reading ‘Era de um bom título que eu precisava’

A arte da fuga

O que andam os portugueses a fazer fora do país

André Guedes em Christchurch, Vitória e Liverpool
Daniel Blaufuks em Cabo Verde
Lara Torres em Berlim e Hamburgo
Susana Gaudêncio em Nova Iorque
Vera Mantero em França

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A arte da fuga

O que andam os portugueses a fazer fora do país
Joana Barrios em Barcelona
Pedro Morais em Marselha
Susana Guardado no Rio de Janeiro
Pedro dos Reis em Nova Iorque
Susana Mendes Silva em Londres
 
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A arte da fuga

O que andam os portugueses a fazer fora do país
Liliana Coutinho em Paris
Rita GT e Francisco Vidal em Berlim
Frederico Duarte em Nova Iorque
Nuno Lucas em Berlim e Genebra
André Gonçalves e A Kills B na Coreia do Sul
Gabriela Albergaria e Miguel Palma em Nice

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Club Tropicana, os primeiros anos

A partir de agora, todos os meses haverá uma quinta-feira  reservada à D.I.S.C.O.Texas. Convidados especiais e os vários membros da trupe dos ananases vão animar as noites. Começam já no dia 4 e trazem o histórico Fred Falke. 

A maioria quer que a vida seja doce. Em todas as suas vertentes. Coisas demasiado salgadas não são para todas as bocas nem para todos os gostos. O Ananás no final das refeições corta as possíveis gorduras ingeridas antes e deixa um gosto doce na boca. Agora esperem um bocadinho que já cá voltamos. 

Quando os acontecimentos se sucedem a velocidades pouco habituais (leia-se “a grande velocidade”), é difícil, mesmo nos momentos de aparente lazer e pousio, ordenar os factos e tirar conclusões. Em dois anos e qualquer coisa, sete tipos DJs juntaram-se, assim sem se aperceberem muito bem e fizeram noites que, também não muito claramente, a princípio, apelidaram de D.I.S.C.O.Texas. Eles dizem que são sete mas é um bocado confuso, especialmente quando os vemos nos finais de noite todos ao molho dentro da cabine. O que está registado no site deles (página fresquinha, tem poucas semanas) na pasta “Artists” é: Moulinex, Xinobi, Double Damage (dois tipos, não se sabe quem, encapuçados com “máscaras caveira”), Bandido$ (que são dois), Cpt. Luvlace, e a última adição Gun N’ Rose (um alter-ego de Nuno Rosa). Voltem atrás e contem, eu não conto sete, há aqui algum mistério… Gajos com capacetes “fora”, vai-se lá saber. Continue reading ‘Club Tropicana, os primeiros anos’

A arte da fuga

O que andam os portugueses a fazer fora do país
Pedro Barateiro em Vigo e Paris
Nuno Gil em Nova Iorque
Lúcia Prancha e Bruno Cidra em França
Ana Quintans em Paris
Xinobi e Moulinex nos EUA
Ana Vicente em Londres

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É quase Verão (no Hemisfério Sul)

Vamos fazer um “shortcut” e saltar a parte do Inverno. Os Cut Copy vêm ao Lux.

Numa manhã de Sábado, estamos nós a regressar depois de uma óptima
sexta-feira à noite e já os australianos estão a pensar em sair outra vez de casa para dançar. Estamos nós rabugentos, a habituarmo-nos à chuva outra vez, estão eles, sem pensar duas vezes, a largar casacos em casa. Os australianos, por fuso horário e assim em traços largos, estão mais avançados que nós. É o que parece, assim em tom de piada fácil entre hemisférios, daqui de cima. 

O “buzz” desta nova onda australiana do que se pode chamar de pop dance (ou indie dance ou seja o que for) começou há alguns anos, mas este Verão teve um álbum e um grupo de nome fácil que liderou as atenções. Um nome que utiliza as palavras “cut” e “copy” é hoje, mais ou menos, o que um nome como “ABC” era nos anos oitenta. São estas as primeiras “letras” do alfabeto de quem aprendeu primeiro a clicar num rato.  Continue reading ‘É quase Verão (no Hemisfério Sul)’

A arte da fuga

O que andam os portugueses a fazer fora do país

José Maria Vieira Mendes em italiano
Madame em Shoreditch
José Albergaria em Paris
Miguel Palma na Bienal de New Orleans
Alexandre Estrela e André Guedes na Suécia
O novo projecto de Miguel Santos

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Muitos lados da mesma história

O cobertor sujo de Linus, o melhor amigo de Charlie Brown. Algo do qual não nos podemos separar. Esta é apenas uma hipótese. É bom construir histórias a partir das obras do artista britânico Ryan Gander, que vem a Lisboa inaugurar a Marz Galeria. 

Há pessoas que gostam de acumular coisas, papéis, por acharem que irão ser necessários algum dia, para alguma coisa, para o que for. Um dia vão ser essenciais e vamos sentirmo-nos tão bem por os termos guardado. Enquanto lia sobre o trabalho de Ryan Gander lembrei-me de um postal engenhoso que uma vez apanhei num lugar qualquer e que deve com certeza estar bem arrumado dentro de um livro ou no meio de outros tantos pedaços de papel que enchem prateleiras. A frente e as costas desse postal eram iguais, ambos se assemelhavam ao verso de um postal vulgar, com lugar apropriado para escrever a morada, colocar o selo e escrever a mensagem. Não tinha frente, não tinha “imagem”, nem nenhum slogan. Apenas uma frase adornava ambos os lados na perfeição – em fonte pequena e discreta – “There’s two sides to every story”/ “Existem sempre dois lados da mesma história”. 

Ryan Gander gosta de contar histórias e construí-las das mais variadas maneiras. Tudo pode servir – a sua mãe, um trabalho de um outro artista, o vídeo, uma animação, um argumento, uma instalação, uma escultura, uma pintura, um anúncio, um livro, uma fotografia, uma revista, a linguagem, outros criadores, uma conferência, uma entrevista. Continue reading ‘Muitos lados da mesma história’

A arte da fuga

Vasco Araújo no Jeu de Paume
Portugueses na Frieze Art Fair
Leonor Antunes em Berlim
Vasco Araújo e Ângela Ferreira na Bienal de São Paulo
Alexandre Farto, Nova Iorque e o agente de Banksy
Filipa Ramos na Galleria Galica
João Maria Gusmão e Pedro Paiva em Milão

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Entrevista Erol Alkan

Erol Alkan à conversa com Susana Pomba em Londres  

Num dos festivais de Verão deste ano, enquanto esperava ordenadamente pelo próximo concerto, um rapaz aproximou-se de mim entusiasmado, quase esbaforido, a pedir-me para tirar uma fotografia à minha t-shirt. Assim o fez e foi embora contente, genuinamente contente. Visto essa t-shirt com alguma parcimónia e orgulhosa por ter tido tanta sorte em ter conseguido comprá-la -“E.R.O.L., Keeps Kids Dancing”. É impossível negar a importância de Erol Alkan. O mito que cresceu com rumores das noites de segunda-feira do clube Trash em Londres, mais tarde com os seus famosos mash-ups (“Can’t Get You Out Of My Head” + “Blue Monday” nos Brit Awards…), depois no desenrolar de um enorme catálogo de remixes que vivemos e que rapidamente se tornaram épicos, lançaram “trends” e que os mais cínicos ainda esperam para ver se se colam com cuspo ou com cimento. Esperemos mais uns anos mas sem dúvida que as remixes para “Believe” dos Chemical Brothers, “Do You Wanna?” dos Franz Ferdinand, “Boys From School” dos Hot Chip”, “Waters Of Nazareth” dos Justice, “Golden Skans” dos Klaxons ou “Mammoth” dos Interpol, vão ditar muita coisa da História, que se escreverá depois, do que hoje vivemos. E mais se adivinha das suas colaborações recentes, como produtor, com bandas como os The Long Blondes, Mystery Jets ou Late of The Pier. E das suas aventuras como Beyond The Wizard Sleeve ou Mustapha 3000. Mas nada disto se completa sem estar lá. Num dos seus sets. Gosto de pensar que E.R.O.L. é definitivamente um dos grandes maestros. E só tem trinta e poucos anos, imaginem o que vem aí deste homem (de quase 2 metros!) que aos 4 anos, mesmo sem saber ler, conseguia distinguir os discos pelas rodelas e assim fazia de DJ para a mãe. 

O Lux está a comemorar 10 anos, mas estamos concentrados no futuro. Tens planos para a próxima década?

Eu nunca planeio nada. Tudo o que aconteceu nos últimos 10 anos tem sido uma progressão natural. Vou de uma coisa para outra. Em termos de carreira isto é quase uma coisa “suicida” – não saber o que se vai fazer. Eu acho isso entusiasmante. Quando comecei a gerir um clube (Trash) comecei-o porque era isso que queria fazer, queria tocar, ter a liberdade para o fazer e tudo se desenvolveu daí. Comecei a ser conhecido como DJ, e depois a andar pelo mundo e a trabalhar com bandas. Todas estas coisas aconteceram naturalmente, eu nunca sonhei que um dia fosse fazer isto ou aquilo, tornar-me num produtor ou num DJ. Não que não tivesse a ambição. Sinto é que a única coisa que realmente nos entusiasma criativamente, ou em termos artísticos, é aquele “spark” que nos leva a fazer alguma coisa. Quando sentimos que o que estamos a fazer é válido. Tem sido tudo muito natural. Eu só faço coisas quando me sinto verdadeiramente inspirado. 

Estamos a chegar ao fim desta década. Existe a tendência para pensar no que a define. Nos anos 90 foi o “boom” da dance music, das raves. Achas que estes últimos anos têm sido definidos pela junção do rock e da música de dança?

Eu sempre tive a consciência dessas duas coisas juntas. Para mim o que está a acontecer agora não é diferente do que o que os Chemical Brothers estavam a fazer no início dos anos 90. Se quiseres pensar na música de dança e no rock a fundirem-se basta pensares em muitas das produções britânicas pop dos anos 80.  Continue reading ‘Entrevista Erol Alkan’