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31 de Dezembro de 2008, 23h59. Na mão doze passas, uma para cada resolução que se quer tomar no novo ano. Sensatas, prepotentes, ridículas, seguras. Nossas.
Primeira passa: Tempo
Este ano vamos ter tempo. Vamos escapulir-nos mais cedo do trabalho para entregar o corpo a massagens. Vamos ao cinema uma vez por semana, sessões duplas se for preciso, Tarantino ou Oliveira. Vamos contorcer a agenda para marcar jantares de amigos, daqueles que se alongam até virarem ceia, pequeno-almoço. Vamos esticar-nos no sofá, indiferentes à loiça que grita para ser lavada. Vamos ver os miúdos sem ser a dormir, vamos dar um beijo aos pais sem ser no Natal. Vamos ter tempo para nós, para rir agarrados à barriga, para ler revistas à beira rio. Vamos enterrar o telefone debaixo do colchão, atirar o despertador contra a parede, dormir mais uma hora, fazer da preguiça um pecado imortal.
Segunda passa: Corpo
Este ano vamos deixar o ginásio onde não pomos os pés, onde não levantamos pesos, onde o rabo não diminui, onde os músculos não aumentam, onde a carteira emagrece. Vamos calçar os ténis e subir e descer colinas, para isso temos sete. Vamos passear o cão mais vezes, ensiná-lo a atirar a bola para a apanharmos. Vamos correr os metros que conseguirmos, hoje dois, amanhã quatro, para o ano a maratona. Vamos comprar uns patins, arranhar os joelhos. Vamos dançar na sala, pular na cama, trepar paredes, subir um andar a pé, mais dá-nos cabo dos rins. Vamos desejar com muita força que o corpo ganhe contornos de escultura. Esperar para ver.
Terceira passa: Comida
Este ano não vamos renegar um hambúrguer, umas batatas gordurosas, uma piza familiar. Não vamos ostracizar os brócolos por serem verdes, torcer o nariz aos espinafres, fazer a segregação da cebola. Não vamos desmaiar com os transgénicos, benzer-nos perante salada pronta-a-servir. Vamos deixar o enjoo de lado para experimentar peixe cru, perceber que se perderam anos de vida, nunca mais querer outra coisa. Vamos espalhar tachos pela cozinha, sujar o fogão, errar até fazer bem, perceber que a comida feita existe por algum motivo. Vamos tornar-nos reis da cozinha, impressionar o mundo. Vamos estourar dinheiro num restaurante caro, vamos sentar-nos numa tasca. Vamos esquecer a ASAE e voltar ao pato à Pequim.
Quarta passa: Nós
Este ano vamos ajoelhar-nos para um pedido de casamento. Vamos ganhar coragem para lhe dizer que temos outro, que o seu melhor amigo se faz a nós, e nós a ele. Vamos mudar de casa, uma tão grande como os nossos sonhos. Vamos dizer-lhe que o amor já lá vai, passou. Vamos tentar ter um filho. Vamos apanhá–lo com outra, vomitar todas as lágrimas e arranjar um novo amor. Vamos esquecer as paixões de 2008, de 2007, todas as que nos espatifaram o coração. Não vamos dizer que o problema somos nós, não eles, porque às vezes são mesmo eles. Vamos fingir que nunca dissemos “nunca mais” e vamos viver tudo de novo. Vamos dizer “desculpa”. Vamos esperá-la com o jantar feito. Vamos levá-lo à bola. Vamos pedir–lhe a chave de casa. Vamos dizer “não desculpo”.
Quinta passa: Alma
Este ano vamos ser solidários. Vamos mandar trabalhar quem exigir cinco euros para “uma sopinha”, pagar um cornetto-
-morango a quem o pedir com convicção. Não vamos dizer “para comida sim, droga e vinho é que não”. Vamos sacar de uma moeda quando a intuição nos mandar, oferecer o último cigarro, esticar o isqueiro para lume. Não vamos deixar gorjetas ao empregado que nos levou o copo que ainda tinha vinho, ao taxista que quase nos abateu a tiro por pedirmos factura. Vamos dar a volta ao armário, deixar partir calças que nunca viram a luz do dia, livros que já foram lidos, pacotes de arroz em excesso.
Sexta passa: Viagens
Este ano não damos a volta ao mundo, mas damos voltas no mundo. Vamos fazer o mapa de carro, escolher a low cost mais barata, somar cidades. Vamos para fora cá dentro, vamos para fora lá fora. Vamos ao castelo de 28, vamos ver Lisboa de barco, vamos ao Porto pelos carris. Vamos estar em movimento, vamos ficar parados a olhar para Nova Iorque, Roma, Madrid, Xangai. Vamos ter saudades de casa. Não vamos querer voltar.
Sétima passa: Poupança
Este ano vamos virar o porquinho ao contrário, pescar as últimas moedas, jurar que tudo será reposto. Vamos resistir ao crédito tão fácil que só pode ser difícil, ao empréstimo de seis meses que é para a vida toda, ao dinheiro emprestado que é sempre vendido. Vamos fazer explodir o subsídio de férias, pôr nos pés uns sapatos de dezenas, na parede um plasma de milhares, não é verdade que uma vez não são vezes? Vamos fazer contorcionismo orçamental até ao final do mês, dos meses, do ano. Vamos suspirar por mais, vamos ser felizes com menos. Vamos fechar a poupança-reforma, abrir uma conta-vida.
Oitava passa: Gritos
Este ano vamos gritar com a EMEL, rasgar em pedacinhos a décima-oitava multa, lançá-la ao ar versão confetti. Vamos inverter os papéis, gritar com o chefe, exigir um “obrigado”, um “por favor”, um sorriso? Vamos gritar com quem deixar o cão aliviar-se nos passeios públicos, com quem não parar na passadeira, com peões que se arrastam na passadeira. Vamos gritar pelo Benfica, gritar com o Sporting. Vamos gritar com a crise, com os professores, com os bancos nacionalizados, com o prato que se desfez no chão, com o três no Euromilhões, com a chuva sem chapéu à vista.
Nona passa: Parvoíces
Este ano vamos oferecer abraços a quem passar, vamos para a janela lançar bolas de sabão. Vamos pôr um trampolim no meio da rua e cobrar um euro por salto. Vamos trabalhar com um fato de Batman, assegurar que só podemos trabalhar em missões heróicas ao serviço da pátria, nada de mandar mails ou atender telefones. Vamos andar de bicicleta na rotunda do Marquês. Vamos pedir um beijo na boca a um estranho. Só para ver a que é que sabe.
Décima passa: Eu
Este ano vou jantar fora sozinho, pedir só um bilhete no cinema. Vou passar um fim-de-semana inteiro de pijama, sem lavar os dentes antes de dormir. Vou apagar o teu número de telefone e verter lágrimas agarrada a um peluche. Vou cortar a franja e pintar as unhas dos pés na mesa da sala. Vou aprender espanhol, mandarim, informática e cozinha do Camboja. Vou atravessar o restaurante para dizer que o miúdo aos berros me tira o apetite. Vou ver novelas às escondidas, ler romances pop debaixo dos lençóis. Vou mandar o bife para trás as vezes que forem precisas, voz firme, olhar erguido. Vou dizer que não gostei da prenda, exigir o talão de troca. Não vou encher o mundo com as minhas dores, bem bastam as dores do mundo.
Décima primeira passa: Confissões
Este ano vamos pôr tudo em pratos limpos. Vamos contar quem fez o risco na porta esquerda do carro, quem atacou a poupança para comprar o gadget. Vamos contar que aquelas férias com amigos no Algarve, há doze anos, afinal foram em Ibiza. Com o namorado oito anos mais velho. Que não tinha carta. E que era sensível ao álcool. Vamos dizer que mentimos, que aquele vestido a transforma num cachalote, não a faz parecer mais nova, muito menos magra. Vamos anunciar que foi por medo que não entrámos na montanha-russa, não foi bem por prescrição médica. E que a deixámos casar com outro porque fomos estúpidos. E teremos que viver com isso para sempre.
Décima segunda passa: Horóscopo
Este ano não queremos saber se Leão vai bem com Virgem, se Capricórnio irá para a cama com Peixes, se Sagitário só poderá ser feliz com Balança. Vamos dar fogo às previsões que anunciam dores de dentes, febres altas e Júpiter na casa de Saturno. Vamos rir-nos das boas probabilidades de aumento, de negócios de milhões, de amores para toda a vida. Não nos digam que Abril vai ser um mês excepcional, que em Agosto pode estar calor e que em Novembro é capaz de chover. Não tracem a nossa vida por um ano, que a nós só nos importa o hoje.
apipocamaisdoce.blogspot.com

Portugal queixa-se da crise, mas esta pode ser a nossa oportunidade para sair do comodismo do sofá. Já passámos demasiados anos embalados no conforto dos carros, dos telemóveis e do deixa andar. Não queremos desperdiçar mais oportunidades. Com a crise surge a metamorfose.
Esta história começa nos Estados Unidos e acaba em Portugal. E mesmo que não pareça, ainda pode ter um final feliz. Depende de nós.
Tragédia número 1: o comediante norte-americano Grouxo Marx ficou sem 240 mil dólares (“Podia ter perdido mais, mas era todo o dinheiro que tinha”, disse Grouxo) quando a bolsa de Wall Street se desmoronou em 1929. Um dos seus amigos, Max Gordon, assessor financeiro, ligou-lhe. Gordon disse então as suas últimas palavras e deu um tiro na cabeça.
Tragédia número 2: setenta anos mais tarde, em Dezembro de 1999, eu estava na Venezuela para escrever sobre as inundações e derrocadas que mataram mais de 15 mil pessoas: as chuvas tinham destroçado os morros onde antes se equilibravam milhares de barracas; rios de lama empurraram carros, pessoas e casas até ao mar, despedaçando tudo contra os hóteis de luxo e as mansões de praia da alta burguesia de Caracas. No país que acabara de eleger o comandante socialista Chávez, esta era uma estranha forma da Natureza explicar a luta de classes. Eu, jornalista em fim de estágio, que ainda usava sapatos de vela, comprei o bloco de apontamentos que mais me aproximasse do jornalismo dos filmes “Terra Sangrenta” e “Os Homens do Presidente”. Tinha boas intenções. Mas no final dessa semana de reportagem, percebi que, por mais empenho literário que tivesse, haveria coisas que nunca conseguiria contar com suficiente precisão emocional. Tinha apenas de vivê-las: como a irremovível presença do cheiro dos mortos espalhados pela praia, misturados com o lixo, um cheiro dolorosamente doce que se instalava no céu-da-boca e subsistia mesmo depois de lavarmos os dentes.
Numa estrada de terra onde as pessoas caminhavam em busca de um campo de damnificados – assim lhes chamavam os jornais venezuelanos –, quis fazer perguntas a um homem que transportava um frigorífico. Tinha perdido a mulher e os filhos, soterrados dentro de casa. Sobrara–lhe aquele electrodoméstico que acabara de pousar na lama. No final, estendeu-me a mão e, como se fosse eu que precisasse de estímulo, despediu-se: “Buena suerte amigo, siempre p’alante.” E adiante foi, com o frigorífico às costas. Continue reading ‘O elogio da crise’

Depois d’A Cona de Picasso e d’As Mamas de Betty (alô Cotrim, daqui Rocha!), eis chegada a vez da rata mais conhecida e acarinhada do planeta ter neste jornal o seu devido destaque. Refiro-me não a Paris Hilton ou à já defunta Cicciolina, mas àquela que ficará para sempre conhecida como a Rata do Mickey – a Minnie.
A Minnie não é uma rata nova. Nascida em 1928, já passou ao longo dos seus oitenta anos por várias crises. A primeira foi logo nos anos 30, mas diz quem sabe que é uma coisa perfeitamente natural e que isso é o resultado do funcionamento do relógio biológico. Rata que é rata é como o capitalismo – volta e meia tem uma crise. Pelo menos é o que dizem os entendidos, porque eu, confesso, não percebo muito do assunto.
Mas a Minnie merece a minha atenção por outras razões. A verdade é que apesar de famosa e prezada por pessoas de todas as idades e sexos, a Minnie foi sempre uma rata preterida pelo seu companheiro Mickey, o que faz dela a rata mais mal fodida do planeta. Portanto, estando nós a viver a época natalícia, a minha atenção só poderia cair sobre alguém que tivesse sido humilhado, ofendido e, no caso, mal fodido. Mesmo que esse alguém fosse uma rata. Decidi por isso ligar-lhe.
Da primeira vez, não estava. Tinha saído para ir ao ginecologista. Mas da segunda, foi uma rata aos saltos de felicidade que confirmou a entrevista:
— Terei muito gosto – fez questão de referir – Mas tenho um pedido a fazer-lhe.
— Claro, esteja à-vontade – respondi.
— Eu gostava de ser entrevistada no Memorial. Acha que é possível? Continue reading ‘A rata do Mickey’

Aviso
Esta coluna dedica-se à análise de grandes letras da história da pop, desrespeitando deliberadamente quaisquer direitos (ou intenções) do autor.
SUSSUDIO
Phil Collins, 1985
Em 2005, durante a campanha eleitoral em Inglaterra, Noel Gallagher, esse brilhante comunicador do gabinete pop do departamento de cultura do governo inglês, ameaçou os eleitores britânicos com o regresso de Phill Collins a Inglaterra, e o abandono do seu retiro na Suíça, caso os conservadores ganhassem as eleições. Não ganharam e segundo posteriores indagações este foi apenas mais um facto dessa construção, digna de uma análise baudrillardiana, que considero ser uma das maiores conspirações do século XXI. Desconfio que Noel fazia o papel de Toupeira Pública – ou seja, alguém que é secretamente de uma facção mas aparece publicamente a criticá-la para disfarçar a sua filiação e assim construir um mecanismo conspirativo capaz de iludir quase todo o mundo ocidental e eventualmente não parar ali perto de Istambul. Foi este facto que despoletou o meu interesse e que ao fim de algumas horas de pesquisa tomou de assalto a minha vida.
Tendo a concordar com aqueles que eventualmente me criticarão por ter escolhido um alvo fácil, longe da trama geopolítica que creio ter conseguido provar com a análise a esse tema de combate que é “Nikita”, aqui publicada em Novembro.
Mas estou confiante que o impacto social do que descobri, não sendo ainda um facto histórico comprovado é, sem dúvida, uma das maiores ameaças que enfrentamos este século. E mais uma vez vem disfarçada de êxito pop dos anos 80.
Tentarei provar a ousadia do meu enunciado dado que até hoje as únicas pessoas suficientemente lúcidas para perceberem o alcance desta conspiração são os autores de “South Park”, que no episódio “Timmy” de 2000, mostram uma população inteira de crianças viciadas em ritalina e em Phil Collins, facto a que nenhuma autoridade competente deu seguimento. Continue reading ‘Filologia Livre da Pop do meu poluído imaginário’

De Nova Iorque, eis a dupla Rub-N-Tug, mais uma prova de que a música para dançar pode ser transcendente sem aditivos. Dia 9, voltam ao Lux.
A música é energia condensada. É um convite declarado à transcendência. Por sua vez, o acto de dançar pode significar o triunfo da disciplina, uma aprendizagem das regras de boa conduta. Mas pode ser também modelo de desordem social. Se a música pode perturbar, música de dança perturba ainda mais.
Talvez por isso se tenha espalhado com tanta insistência que existiria uma correlação entre o consumo de substâncias aditivas e música de dança. Um disparate pegado, claro. Di-lo quem já dançou ao som do techno de Jeff Mills, do trance de Goa Gil, do drum & bass de Fabio, do house de DJ Harvey, do kuduro dos Buraka Som Sistema, do rock dos Sonic Youth, do electrorock dos 2 Many DJs. Di-lo quem já dançou abraçado ao silêncio.
Di-lo quem já dançou ao som do duo Rub-N-Tug, prova de que a música, por si só, pode ser narcótica, pedrada, soporífica. Di-lo quem já a ingeriu e sentiu no corpo. Se a música é um convite à interacção num espaço público, o último dos vestígios de participação comunitária, então os Rub-
-N-Tug estão conectados com este tempo. Estão para a música de dança como os Animal Collective para o rock. Acreditam na liberdade, sem merdas. Continue reading ‘A dança narcótica’
Passa das duas da manhã, falta mais de um ano para o milénio, está frio. Chego com o Paulo e o Delfim a uma terra na outra margem, à beira rio, em frente à varanda do Lux.
Perguntamos a direcção do clube a um velho que está na rua. Ele, depois de a dar, diz-nos que durante a noite várias pessoas têm perguntado pelo mesmo sítio.
Agradecimentos e sorrisos, expecta-tiva e antecipação, nervoso miudinho. Pressa.
As últimas partes destas viagens fazem-se sempre devagar, ao adivinha, jogos de pista para escuteiros sonoros, que acabam invariavelmente no parque de estacionamento de um local improvável.
O dia vai alto agora, Lisboa acordou do lado de lá e eu digo ao Paulo que não consigo parar de dançar.
Mais tarde releio o nome dos culpados num rectângulo de cartão rígido, do tamanho de um cartão de visita. O flyer que anuncia a festa da Hipnose. Spiralkinda, alemães. Estou, claro, muito longe de imaginar que haverá um reencontro, mesmo que noutra encarnação.
Entretanto passaram os anos e não me esqueci daquela noite. Dez anos, para ser exacto.
Passemos então ao reencontro:
O rio continua o mesmo, trocamos de margem. Local: Cais da Pedra a Santa Apolónia - Lux. O caminho é mais curto e fácil. A razão porque o percorro é a mesma: ouvir uma e outra vez aquele techno alemão de baixos fortes, cheio, escuro e industrial. Continue reading ‘Extrawelt’

Embora o ORÁCULO* esteja dividido por Signos Astrológicos, toda a gente tem em si o Zodíaco completo. Portanto podes ler também a mensagem para o Signo da tua Lua e o do teu Ascendente. Isso sabe-se através da tua data, hora e local de nascimento. Assim ficas com uma visão mais completa da onda do mês, para ti. E depois tu é que escolhes a quantas andas. Sempre.
Carneiro
Gémeos
Touro
Caranguejo
Leão
Virgem
Balança
Escorpião
Sagitário
Capricórnio
Aquário
Peixes