Para levar e ler…
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live, Sexta 13
Em 2005 Mathew Jonson editou
”Marionette” pela Wagon Repair. Quem gosta de dançar estas coisas sabe que às vezes se sente controlado por uma força superior que o anima e conduz de modo irresistível. Se muitas designações de faixas de música electrónica pecam por ficar nos extremos – ora demasiado óbvias, ora completamente alheias ao que o som nos revela – “Marionette”, pelo contrário, parece todo um programa de acção para os lives de Mathew Jonson até hoje: As máquinas são os fios, a nós resta-nos ser dominados com prazer… pelo som.
Algumas figuras crescem de modo assustador até se tornarem lugares. Pode chegar-se a Cesariny de muitas maneiras, mas a mais absorvente e nacional não haja dúvida que será esperar sentado que nos atinja de um golpe. Países há onde mar e mar os fazem ir e voltar, e só isso explica que haja países a dar a volta ao mundo atropelando escolhos e tédio e mortes.
Movem-se triturando navios de espelhos, com um enigma no lugar do coração, olhos de ver ao infinitamente perto e ao astronomicamente longe, degraus só de subir e uma varanda para os abismos. Transportam o perfume acre da fruta próxima, o restolhar surpresa dos pássaros exóticos e a macia potência do felino enrolado em si.
Cesariny vem de um tempo em que viver era rasgar possibilidades, Mário, e as contas não foram ainda feitas, de Vasconcelos, pelo que não sabemos quanto lhe devemos em desejo e ventania, em confusão e lucidez, em verticalidade e camisolas de alças, inteireza e veludo com nódoas. Afiou cada âncora como palito, de maneira que os dentes acabaram por se tornar estrelas. Lugares irrequietos onde só se vislumbram regressos, como este, fazem–se difíceis de atracar aos mapas e só com muita sorte e acaso se conseguem indicações capazes de levar o viajante ao encontro da sua perdição, aquela que buscamos com íntimo desespero ao fugir-lhe. Noite e dia, trabalham algures os pianos escravos a escrever no chão com navalhas as maldades, que são outros tantos caminhos. Esta personalidade geográfica caracteriza-se pela aguda magreza que explode mais tarde, por vezes antes, em largueza de vistas. Um passeio de domingo de manhã pelas costelas ou uma descida perigosa aos artelhos justifica-se com tanta urgência como um assalto crepuscular ao museu de artes antigas marciais e fonéticas. O mergulho na piscina de sangue garante uma juventude tão eterna como o vibrato sustenido do tenor mais tenaz. Continue reading ‘A voz de Cesariny’

O país decorou casas, restaurantes e salas de aeroporto com televisões. O vício intensifica-se, mas a droga tem cada vez menos qualidade. Não podemos viver com a tv. Não podemos viver sem a tv.
Depois de contemplar a caixa de cartão durante mais de uma semana, fantasiando com a felicidade e o estatuto que nos daria o seu conteúdo, eu e os meus irmãos esperámos que todos os outros presentes de Natal fossem abertos e, por fim, as nossas mãos pudessem rasgar o cartão e oferecer-nos o futuro. Só podia ser um leitor de vídeo, díziamos. Afinal, na minha turma de 35 alunos mais de metade já gravava os seus programas preferidos ou alugava o “Conan, o Bárbaro” em
videoclubes. Só podia ser, além do mais, um VHS, uma vez que os Beta estavam a ser ultrapassados pelo novo formato tão rapidamente como os blusões de penas Duffy tinham ficado fora de moda. Dentro da caixa? Um presunto, oferta de um cliente do meu pai.
O desgosto marcou de tal forma a memória desse Natal, que ainda hoje, entre os irmãos, e com sentido de humor, se conta essa história. A verdade é que a televisão (e o vídeo como upgrade da televisão) se tornara no centro sólido da nossa coexistência doméstica. No início da adolescência criou-se a Sala da Televisão – ninguém na minha família se lembraria duma sala de leitura mas, ao menos, também não se lembraram de uma sala de tortura.
O comando da tv era muito mais que o ceptro do tirano do sofá. Os meus pais tinham a sua própria televisão no quarto (havia várias lá em casa, hoje ainda mais). Como tal, a sala onde os filhos disputavam o comando poderia muito bem ter-se tornado numa versão (classe média e meninos da linha) do “Senhor das Moscas”. Contudo, e apesar dos conflitos, estabeleceram–se regras entre os rapazes. O primeiro a chegar detinha o comando. Caso o seu critério de zapping desagradasse aos restantes irmãos, o gestor do comando teria de aceitar a escolha da maioria, mas mantinha a posse do objecto: a televisão era demasiado importante nas nossas vidas para que a desordem social impedisse o seu regular funcionamento. Como obedientes soldados da revolução cultural, não queríamos interromper o grande líder. Continue reading ‘Senhor Urbino e Dona Susete, os fazedores de sonhos’
live, Quinta 19
Hoje fazemos o exercício ao contrário. Não nos dão a música a ouvir. Apenas nos dão o nome de um disco: “Drowning in a sea of love”, de Nathan Fake. Num daqueles jogos de associações rápidas temos de adivinhar que tipo de música é esta, como quem tenta adivinhar um disco pela capa. Esta música, como o amor, é indefinível. Legitima todas as metáforas, é jovem e misteriosa, confusa e louca, alegre e sofrida, difícil de compreender, desconfortável até, tão depressa a mil à hora, como em câmara lenta. Vale a pena dançá-la assim, como quem se afoga num mar de amor.
Renascer é preciso. Desliga a TV. Olha para o céu. Chega de trauma. Não acredites se te disserem que o pior está para vir. Experimenta acreditar no contrário, vais ver que resulta. Olha para ti. Olha bem. Mede o poder que tens, é mega! Podes recriar-te a todo o instante, podes dar a volta a tudo, e mesmo que digas que não, sabes que sim. Medo de quê? Sempre houve gente feliz em tempos de crise… e sempre houve gente em crise, no matter what. Renascer é preciso. Assim é que é.
Carneiro
Gémeos
Touro
Caranguejo
Leão
Virgem
Balança
Escorpião
Sagitário
Capricórnio
Aquário
Peixes
É mesmo isso
Detroit é a cidade da Motown, Stooges, MC5, White Stripes, Funkadelic, Eminem, Aretha Franklin, Marvin Gaye, Kevin
Saunderson, Juan Atkins e Derrick May. Todo o manual techno de Detroit é atribuído aos três últimos e tudo parecia inventado em 1990. Mas ainda houve Underground Resistance (UR), Carl Craig e as muitas ramificações do som de Detroit encontradas na Europa. Agora Omar S escreve num dos seus discos “I’m putting Detroit city back on the map!”
Pelo menos desde os UR que existe claramente uma ética no techno de Detroit. O trabalho social e militante de Mike Banks e amigos (Jeff Mills também foi UR) ficou como exemplo de uma postura mantida viva na meia geração seguinte por Kenny Dixon Jr (Moodymann), Theo Parrish, Rick Wilhite, M. Pittman e Alex O. Smith (Omar S), talvez o mais novo de todos eles. Theo Parrish vocifera mais porque dá mais entrevistas, mas Omar tem classe para seguir perto e ultrapassar, se ao menos publicassem mais palavras suas. A única entrevista a circular na net revela a natureza conflituosa que defende as raízes e o verdadeiro espírito da música. Como Kenny Dixon Jr, Alex O. Smith utiliza o nome para as referências de catálogo nos discos: A.O.S., como KDJ. A informação escrita à mão, nos primeiros maxis, é mais um bocado de si colocado no vinil e, para entusiastas de mensagens escondidas, leiam as frases gravadas nos discos junto ao rótulo: “A.O.S. is retiring soon!”, “FXHE is Detroit’s new sound - muffuka’s”, “This shit is sick!!!”, “Real right”, “Can y’all keep up with this!”, “Traxx are german approved!”
Estas frases ajudam a descodificar uma pessoa em tiradas simples que passam uma atitude em tudo semelhante ao rap: eu estou aqui e é isto que vou fazer. E manter a coisa real parece ser o máximo a que Omar aspira, musicalmente. No entanto, muito perto do sublime há corridas de carros*, jogos vídeo, action figures Star Wars e discos de boogie. Omar S processa toda essa informação pop na cabeça e faz house que passa a ser a nova coisa a igualar. Tradição e futurismo em muito poucas palavras, quase nenhumas mesmo (os dedos de uma mão sobram para contar os temas com voz), um tecido muito fino que brilha intensamente com a luz certa e a luz certa é só um pouco de atenção extra que temos de dedicar à sua música. Continue reading ‘Omar S’
Notícia de última hora: há mulheres que não sabem cozinhar. Homens habituados a que lhes façam sempre o jantar já começaram a entrar em pânico.
Hoje é dia dos namorados. Quer dizer, quando o leitor puser os olhos nesta prosa, já estaremos em Março, numa contagem decrescente ansiosa até à Primavera. Os dias de sol já estarão muito mais perto, o Verão já não parecerá uma luz ao fundo de um túnel infinitamente quilométrico. Aos poucos, começaremos a perder o tom amarelado da pele e o cinzento da alma. Mais um dia de chuva e tornamo-nos, oficialmente, no povo mais deprimido do mundo, com direito a baixa psiquiátrica e tudo.
Mas hoje, dia em que vos escrevo, parece que é suposto homenagear o amor. E enquanto estudo os ingredientes de uma tarte de queijo brie com doce de frutos silvestres, receita com a qual conto impressionar (ou envenenar, conforme o resultado final) a minha cara-metade, dou-me conta que isto sim, é amor. Eu, que mal sei estrelar um ovo, enfiada na cozinha à espera dele com um jantar que não sairá da Bimby, mas sim destas mãos de unhas vermelho-sangue-de-boi. Temo pela saúde do meu homem. Da história não rezam jantares de S. Valentim que metam gastroenterites, taxas moderadoras e noites a soro em Santa Maria. Temo por ele, temo. Mas temo mais por mim. A pressão aliada à inexperiência e total inaptidão é uma soma fatal que costuma dar para o torto, mas uma prova não superada também é coisa que não se aceita por estes lados.
Ao longo de muitos anos ouvi o meu pai traçar-me um destino fatalista. “Quando o teu marido perceber que não sabes fazer nada vem cá devolver-te”. Uma anedota que, no fundo, no fundo, ele desconfia que tem o seu quê de verdade. Mas já se calou com isso. Lá deve ter percebido que as fadas-do-lar acabaram na época da minha mãe, e que ele se casou com a última disponível no mercado. E que eu, filha única e de uma geração a anos-luz, sou defensora do equilíbrio entre géneros. Em tudo, cozinha incluída.
Aquela coisa de conquistar os homens pela cama e pelo estômago foi chão que já deu uvas. Quer dizer, a primeira parte, a da cama, será sempre verdade, mas isso funciona para os dois lados. Se um homem for fraquinho ou mostrar uma total inabilidade para a satisfação alheia, pode muito bem candidatar-se a um monumental pontapé no rabo. Mais do que legítimo, porque já mulher nenhuma, espero, aguenta uma vidinha sexual sofrível ou que tenha como único objectivo o prazer masculino. Pela cama também se conquista, oh, se conquista!, mas não é um negócio unilateral. Prazer para todos (sejam lá quantos forem). Continue reading ‘A mão que embala o tacho’
Vou-vos dizer a verdade: eu minto.
Ponto de situação.
Mentimos para sobreviver. É verdade, mentimos para esconder o que não queremos partilhar. Invejosos, com medo de não sermos nem especiais nem destinados, mentimos para não vivermos aquele sonho de estarmos nus no meio da escola. Inventamo-nos sempre, inventamo-nos tanto.
Assim, sobrevivemos a mais um Inverno, com todos os seus amuansos, pluviosas birrinhas e depressões climáticas. Sobrevivemos a mais um dia para os namorados e sobram agora os outros 364 para adormecer de pau feito e com o edredon entalado entre a pernas. E passámos um dos maiores testes do ano - mais um Carnaval, a grande celebração do ressabianço.
O Carnaval começou bem. Uma celebração pagã para afastar espíritos beras que avacalhavam as colheitas. Depois mafarricos mascarados utilizavam a ocasião para lavar roupa suja e fazerem justicinha. Agora, na versão moderna, temos em mãos uma espécie de tréguas da moralidade, onde todos podem afinal ser quem querem ser - Saiam meninos e meninas, por uns quantos dias não há apartheid. Isto tudo para termos umas poucas cidades do país cheias de cabeçudos e de uma das piores manifestações de humanidade de sempre — o Folião.
O Folião é uma unidade energética tão irrelevante como irritante, que se distingue por desperdiçar toda a sua energia em fingir ser uma coisa que não é. Congregam-se normalmente em volta de Zés Povinhos a mandar um manguito de cinco metros e com a Claúdia Raia e o Fernando Mendes a equilibrarem-se em cima do carro alegórico. Com o Folião, a única bomba que dá para fazer é uma bomba de mau cheiro. Pronto, não quero falar mais nisto.
Esta é uma época muito complicada para um mentiroso — é impossível saber quem está a falar verdade. O que é problemático, porque ninguém precisa mais de verdade que um mentiroso. O Carnaval, como o conhecemos hoje, é a celebração das máscaras, onde ninguém leva a mal quando somos e fazemos aquilo que queremos fazer e realmente ser. Desculpem, mas assim não vejo razão para esta festa. Esta frustração não merece aplausos nem confetti. Balões de água, sim.
O Cavaco tinha razão, o Carnaval não devia ser feriado. Mas ele tem uma agenda própria — é que ele não é de Loulé e vocês sabem o quanto determinam as forças de pressão (como o bairrismo) nos verdes anos de um adolescente algarvio com uma maneira duplamente esquisita de falar. Ele como ninguém, percebe que não se brinca às máscaras. Ou se é ou não se é.
O melhor momento da vida de uma máscara é quando ela cai e revela. A única coisa boa que uma máscara gera é a curiosidade. O único sentimento activo e criador que vem de uma máscara é a dúvida. E as certezas estão assentes precisamente em dúvidas. A sobrevivência é isso mesmo, defenderes as verdades que precisas, as mentiras necessárias para não desistires de ti. A negação, o escolher não ver é fundamental para sobreviver. Mas acreditar na mentira que inventaste para ti não é a mesma coisa do que fingires seres o que não és. Percebam, já bastam as máscaras que somos, as personas que assumimos, ainda vamos encher-nos de maquilhagem e dentes de plástico. Não acho necessário. Isto é uma festa podre, uma fraude, não existe.
Eu também não existo. Se eu não nascesse tinha de ser inventado. Bem, não só nasci como me inventei. Sou o gajo mais fixe que consigo ser e isso é uma vitória. Agora mascarar-me de dama antiga é um desprestígio ao trabalho que tenho vindo a fazer. Não se põe luvas para sentir. Não sais da sala para ficares mais próximo. Não a chamas pelo nome todo se queres que ela se sinta a coisa mais importante do mundo.
Viver mais e melhor é ter o mínimo de obstáculos entre ti e o que a vida te oferece. É promoveres-te à maravilha e seres jovem o máximo tempo possível.
É procurar um constante estado de iminência e viver num quase quase. Não me digam que não sentem isto. Há mais verdade no segundo antes de te vires do que em quatro anos de faculdade. Há mais propósito num abraço do que numa promoção. Os nossos papéis e estatutos não querem dizer nada quando estamos nus. Continue reading ‘Quimpostor’