O Nº7 já está cá fora!
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DJ e produtor de topo, cabecilha da Innervisions, militante e pensador. Dixon não precisa de palavras para mostrar o que vale, mas tem muito para contar sobre si e sobre a música que o move.
O que vais fazer hoje?
Acabei de tomar o pequeno-almoço, depois vou ver um estúdio novo e à tarde vou encontrar-me com os meus pais para almoçar. Depois temos uma reunião importante sobre um suposto DVD que deveremos lançar.
E o que gostarias de fazer hoje se não tivesses todos esses compromissos?
Ficar em casa, fazer umas limpezas e passar tempo com a minha namorada porque estive em Paris três dias e antes disso foi o fim-de-semana e já não estamos juntos há algum tempo. Gostava de estar com ela, mas como hoje não é possível já marcámos sair de Berlim e passar sexta e sábado juntos.
É difícil ter uma vida normal, ter tempo para os pais, a namorada…?
Sim e não. Tudo depende do que se considere uma vida normal. Comecei a fazer o que faço hoje quando tinha 15 ou 16 anos por isso, para mim, isto é normal, porque não conheço outra realidade, nunca trabalhei numa empresa de publishing, nunca tive um horário das oito às três e fins-de–semana livres. Para mim isto é normal. Às vezes é um bocado louco e rápido, porque tenho muitas datas e muitas coisas para fazer, mas outras vezes é mais lento. O ideal é conseguir dizer não e fazer apenas o que nos permite manter uma vida privada, mas a realidade é que é muito difícil dizer não com frequência e é um processo longo o que nos permite perceber que a nossa vida pessoal é tão ou mais importante do que a nossa vida profissional.
O que te levou a querer ser DJ aos 15 anos? Já produzias nessa altura?
Foi aos 16 e não, não produzia nada, nem pensava nisso. Na verdade eu praticava desporto, sou do lado leste de Berlim e tínhamos um sistema desportivo herdado do socialismo, com escolas especiais para diferentes desportos. Eu andava numa escola de atletismo, era corredor de fundo e devido a problemas no joelho tive que parar de praticar atletismo. De repente perdi a coisa mais importante da minha vida. Antes disso nunca tinha realmente saído à noite, nunca tinha ido a discotecas nem nada, por isso a minha primeira grande experiência de sair à noite foi ir a uma festa de techno aos 16 anos e foi nesse momento que passei dos 0 aos 100, decidi que queria fazer parte daquilo, fosse lá o que aquilo fosse. Depois disso comecei a comprar discos e tive o percurso normal, tentar misturar, etc, etc… só mais tarde, quando comecei a tocar mais, é que pensei dar vida à música que tinha na minha cabeça. Penso que é assim com 90% das pessoas que fazem isto. Continue reading ‘Dixon: palavras para quê?’

O público do Lux tem fama de ser exigente com os DJs. Não surpreende, exactamente porque é um público que já não se surpreende com muita facilidade. Habituado a ver – e ouvir, naturalmente – coisas novas, variadas, diferentes. Às vezes isso pode ser duro para o artista. É bom ter um público conhecedor, mas… Bem, neste caso é capaz de ser um bocadinho ao contrário. O DJ vai ser, certamente, exigente com o público. DJ Koze é conhecido e aclamado, talvez até consensual se tivermos em conta que está muitas vezes nas listas dos preferidos de quem sabe destas coisas. Mas está longe de ser óbvio ou fácil. Assume com toda a naturalidade que o beat é importante mas não é tudo. Não cede ao apelo de tocar mais rápido e mais alto. Um set dele caminhará sub-repticiamente entre o house e o disco, entre beats simples e sons estranhos, até que, sem que se dê por isso, este alemão que se iniciou no hip hop e tem diversos alter egos que denunciam o seu sentido da ironia, terá muito provavelmente feito toda a pista perder a noção do tempo. E isso só acontece quando nos esquecemos do que está à volta, de que a rua está lá fora e que o dia, se calhar, está a nascer. E isso, às vezes, é bom.

2007 – Presente, “Ciao Means Forever”
Algures em 2007, Tiga alcançou uma Consciência Online Total que lhe permite falar directamente contigo através do computador. Um milagre que apenas agora começas a apreciar.
O Meu Nome É Tiga. Welcome to the Bio-Dome, mec!
2007 – Presente, “Ciao Means Forever”
Como sabem, o meu trabalho em remixes desacelerou consideravelmente nos últimos tempos. Assim como as minhas versões dos Alter-Ego, New Young Pony Club, The Gossip e Human League valorizaram a minha reputação como Sex Whizz of Sonic Parlour; eu senti que tinha de centralizar as minhas melhores ideias na minha própria música. A remix do “Gary” dos Alter Ego, por exemplo, obrigou-me a canibalizar grande parte do trabalho das agora lendárias sessões que fiz com o Bobby McFerrin. Foi nesse momento que percebi que tinha de marcar um limite.
As sementes da ZZT – a colaboração que mantenho actualmente com Zombie Nation – remontam às semi-bienais da Gigolo. Depois do meu afastamento da editora sob acusações de Cyber-piromania, sondei-o sobre a hipótese de trabalharmos juntos… possivelmente em música. Sem tardar, converti-me ao seu modo espalha-
-brasas, ao humor. Os nossos temas tendem a ser live por natureza, já que tentamos só usar as partes que requeiram quatro mãos a um tempo. Ou 19 dedos e três lábios. Depende.
Rainer Werner Bassfinder apanha o melhor do meu trabalho com o Jesper Dahlback e leva-o para um outro nível. Um que me força a usar um nome falso. Escolhi “The Dove” por razões de contrato e pudor. Provavelmente 70/30: contrato/pudor.
Nos últimos anos, continuei a dar extensas voltas ao globo. Comi club sandwiches em mais de 60 países e fiz a “Sandwich” em mais de 600 clubes. Também tive coragem suficiente para visitar o Médio Oriente com uma viagem arriscada ao Dubai dizimado pela Guerra. Fui lançar falcões (isto é 100% verdade!), o que já era estranho mesmo antes de ter sabido que as aves eram submetidas a cirurgia plástica para se parecerem mais com celebridades. O meu falcão, disseram-me, era suposto ser o Ethan Hawke. Continue reading ‘Tiga cut’n’paste’

São imbatíveis, fascinantes e úteis para o ecossistema dos humanos. Diante de uma cockteaser, e mesmo com as probabilidades em contra, quase sempre os homens vão a jogo.
Há mulheres que se parecem com Fidel Castro: carismáticas e poderosas, mulheres que usam esse encanto para produzir ilusões. Mas o povo, apesar das consecutivas promessas, continua a passar fome. Para essas mulheres, tal como acontece em Cuba, a revolução está sempre em movimento mas não chega a lado algum. Ninguém as apanha, quase ninguém põe as mãos nessa delirante fronteira entre o limite da meia que aperta a coxa e o princípio da virilha. São as cockteasers.
Embora outras línguas disponham de palavras para designar esse tipo de mulheres (calienta pollas em espanhol, rôtisseuses em francês), em Portugal ainda nos falta uma designação eficaz que traduza a capacidade feminina para atrair e jamais cumprir. São mulheres que manipulam os pretendentes como se fossem campeãs de concursos de yo-yo: o homem pendurado de um fiozinho, em redor do dedo, movendo-se continuamente para cima e para baixo. São provocadoras de erecções que nunca saem das calças. Regem-se pelas regras dos museus: podem olhar mas não toquem. Mulheres microondas. Mulheres que nos fazem esperar na fila e, chegada a nossa vez, nos mandam regressar no dia seguinte.
Estas mulheres desempenham um papel fundamental na explicação da natureza masculina: os homens precisam de caçar, mesmo que a presa tenha a velocidade inalcançável de uma chita. Nas palavras do comediante Bill Maher: “Não se pode reformar a biologia (dos homens). E já agora: a pulsão masculina para espalhar a nossa semente é a razão pela qual somos uma espécie de sucesso.”
Mas se, por um lado, estas mulheres confirmam a herança genética, ainda hoje em vigor, dos homens das cavernas (engravida quem puderes para que a espécie sobreviva), por outro lado desactivam o derradeiro objectivo da masculinidade do caçador – podes correr, rapaz, mas nunca me vais apanhar. O jogo é tão infantil e emocionante como os desenhos animados do Tom & Jerry. E os homens caem com frequência numa perseguição que dificilmente conseguem ganhar. Os homens são o gato Tom, rápidos mas inevitavelmente esborrachados contra uma das paredes da casa. Continue reading ‘O encanto assassino das cockteasers’

A história que vos quero contar é uma história de amor. E como todas as boas histórias de amor está repleta de motivações: tem ciúmes e traições, crimes de sangue e defesas de honra, vinganças, lutas pelo poder, e tem também uma cereja no topo do bolo: jogos de sedução entre homens musculados e com nomes estranhos. A história que vos vou contar é cor-de-rosa, é verdade, porém de um rosa choque.
Convido-vos, por isso, a viajar do tempo. A andar uns séculos para trás. Vinte e seis, para ser mais preciso. Estamos em Atenas, em meados do séc. VI, e Cristo ainda não tinha andado pela terra, o que confere à história um grau de inocência difícil de compreender.
Por estes tempos Atenas era governada por dois tiranos – Hípias e o seu irmão Hiparco – sucessores e filhos de Pisístrato, homem que chegou ao poder pela força das armas e que introduziu a tirania como forma de governação da cidade.
Segundo testemunhos da época, seria
Hípias o homem responsável pelo poder, já que o seu irmão levava uma vida extravagante, regada com música, vinho e poesia, preferindo a vertigem do prazer a coisas como a obrigação do dever ou a responsabilidade do poder.
Hiparco era um homem culto e a ele se deve o desenvolvimento das artes na cidade. Incentivou políticas de mecenato artístico e literário, rodeando-se na corte de poetas e músicos famosos, como Anacreonte,
Simónides e Laso. Hiparco era um tirano, mas um tirano sensível. Principalmente à beleza de jovens e corpulentos rapazes. Continue reading ‘O lado cor-de-rosa da história’

Um estudo diz que os metrossexuais têm os dias contados e que o que está a dar agora é o neossexual, um homem que fica ali entre o troglodita e o excessivamente efeminado. Será?
Uma conhecida marca de desodorizantes achou que manter as axilas do povo arejadas e cheirosas não era missão suficientemente intrincada. Vai daí e aventurou-se num projecto muito mais arrojado: perceber que tipo de homens é que as mulheres gostam. Ora para descobrir tal coisa, a marca realizou um estudo em 14 países do mundo. Portugal ficou de fora, as Filipinas entraram. Tudo bem. Podemos falar de fado e até damos uns toques na bola, mas, ao que tudo indica, homens não é o nosso forte. Paciência.
As conclusões, como quase tudo o que deriva de uma generalização massiva, deixam-me dúvidas. Primeiro ponto: 59% das mulheres dizem estar pelos cabelos com os metrossexuais. Ou seja, os homens que levam tanto ou mais tempo do que nós a arranjarem-se e que empenham mais de metade do salário em anti-rugas, máscaras faciais, sessões de solário e depilação a partes do corpo que raramente vêem a luz do dia.
Aqui balanço, porque desconfio que estamos perante um típico caso de feitiço que se virou contra o feiticeiro. Quem é que lutou anos a fio pelo fim do champô 2-em-1 no chuveiro deles? Nós! Quem é que começou a torcer o nariz aos peitos felpudos tipo Tony Ramos? Nós! Quem é que lhes explicou que os pontos negros se podem combater? Nós! Quem é que lhes revelou as maravilhas que um bom creme hidratante pode fazer pela pele? Nós! Quem é que insistiu que não há cheiros naturais agradáveis e que o perfume é obrigatório? Nós! E agora vimo-nos queixar?
Introduzimos uma data de procedimentos na rotina higiénico-estética dos homens e, claro, eles não conseguem acompanhar tanta inovação. Tudo leva horas, tudo requer uma vida. Em média, um metrossexual daqueles mesmo à séria, deve demorar umas boas três horas até sair de casa. Imune, claro, aos gritos e lamentos da pobre mulher, que tudo o que quer é meia horinha em frente ao espelho da casa de banho para passar de monstro a bela (aquela coisa de que há mulheres que acordam frescas, penteadas e com bom hálito não passa de mito cinematográfico).
No fundo, queremos o melhor de dois mundos: homens cheirosos, macios e de boa cara, mas que consigam ficar assim em tempo útil. E, sobretudo, que não falem demasiado sobre o assunto, nem com muito entusiasmo. Ouvir dois homens a discutir qual é a melhor pedicura ou a quanto é que está a lipoaspiração é meio caminho andado para um turn off irreversível. Continue reading ‘Pêlo na venta e lágrima fácil’
This Is Not a Love Song
Jonh Lydon PIL, 1983
Nasci num santuário na Extremadura espanhola depois de os meus pais terem clandestinamente dado o salto, de forma a retirarem-se discretamente do país, por motivos que ainda hoje não posso revelar.
Vem daí a minha íntima relação com a igreja, pois abro os olhos e dou de caras com um altar de talha dourada e um padre amordaçado para reeducação. Foi a única vez que os meus pais me levaram a uma igreja.
Mas ao longo da vida tive outros episódios fugazes de relação com a fé católica.
Ainda no início da minha carreira como desencriptador, fui aos EUA, a pedido de um primo meu radicado em Newark, de forma a ajudá-lo a decifrar o significado de umas cartas escritas num código estranho que ele tinha apanhado dentro da mochila do filho, num dos fins-de-semana que veio do semi-internato do colégio católico em Boston.
Foi o meu primeiro falhanço profissional. Embora fosse um código primário, com base na antiga escola da Santa Aliança, a rede de espiões criada por Pio IV, em 1566, disse ao meu primo que não era capaz, que era uma língua arcaica e que nesse semestre eu não tinha frequentado o curso por estar acamado.
Chegado a Portugal enviei uma carta anónima ao FBI e a alguns dos maiores jornais americanos. O meu primo veio a saber de tudo uns anos mais tarde.
Já John Lydon sempre soube o que quis, embora na maior parte das vezes isso acontecesse muito próximo do momento em que as coisas iam acontecer.
O que foi definitivamente o caso da descoberta da música que transformou os PIL numas das bandas mais importantes dos anos 80, e do pós-punk em geral.
E o que é que John Lydon tem a ver com a Igreja Católica?
A resposta é simples: “This Is Not a Love Song”. Não, a música não é uma declaração afectiva de Lydon à Igreja Católica. Mas surge de um encontro imediato que Lydon teve com a instituição, em pleno Vaticano no início dos anos 80, mais precisamente em 1981, ano em que o cardeal Ratzinger foi nomeado perfeito da Congregação para a Doutrina da Fé (só para nos situarmos – o novo baptismo da Inquisição). Continue reading ‘Filologia Livre da Pop do meu poluído imaginário’
Todas as conversas são boas conversas se pelo meio alguém disser psiché ou fetiche, palavras especialmente sensuais se proferidas a três milímetros do ouvido interno. Os psichés costumam ter espelho e uma inclinação regulável, informações que poderão revelar-se úteis no fim da noite. Mas deixemos os móveis da avó para outra história. Palavra convidada –
“Fetiche” Este é um vocábulo esquizofrénico que nasce factitius, artificial em latim, vem viver para Portugal onde adopta o nome feitiço, emigra para França onde passa a responder por fétiche e entretanto regressa a terras lusas sem acento e encharcado em perfume. O termo é lusitano por todos os poros, até porque a sua genealogia remonta ao tempo em que os portugueses andaram por África e se depararam com o culto algo obsessivo que os locais dedicavam a certos objectos, menosprezando a profusão de seios nus e luzidios. Mas o fetiche que realmente interessa
é universal e foi introduzido por Alfred Binet, um psicólogo auto-didacta, introvertido e com demasiado tempo nas mãos que o levou ainda a estudar o cérebro de jogadores de xadrez e a base do que viria a ser o teste de Q.I. Venha de lá então uma definição: fetichismo erótico consiste na excitação sexual direccionada para objectos ou partes do corpo que usualmente não são considerados sexuais. A parte, pelo todo, uma espécie de metonímia ao nível do desejo. Tão ridículo e engraçado como um cão que tenta cobrir a perna do seu dono. Continue reading ‘História das palavras trocada por miúdos’