Archive for the 'Julho/Agosto 2009' Category

Nº 10 / Julho + Agosto

Já cá está o 10. E vai deixar saudades…

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A última página?

capas-1Bem contadas devem ser mais de cento e cinquenta páginas onde couberam muitas dezenas de milhares de caracteres (e múltiplos caracteres). Mas nem sequer é uma questão de quantidade. Se tudo aconteceu nos últimos meses, eis a pausa auto contemplativa antes da metamorfose.

Na última página do primeiro número, num texto com o título “A primeira página”, tentávamos explicar a inexistência do Estatuto Editorial da praxe na publicação que então nascia (todos as partes “entre aspas” são cut&paste dessa “primeira página”). Remetia-se quem então o procurasse para a capa. Aí, do “lado direito do cabeçalho”, numa frase com cinco palavras, estava tudo dito. Citando uma entrevista do “inimitável e visionário Amadeo”, anunciávamos e assumíamos que “a nossa vida é toda para diante”. É nisso que acreditamos, com a mesma fúria, dez números e cento e vinte e quatro páginas depois. Mas o número 10 fecha um ciclo e, só por isso, apetece abrandar um instante para olhar para trás por cima do ombro e recapitular – sem vaidade mas com gozo e orgulho – parte do que foi impresso nos últimos dez meses.
Foi em Outubro (depois de um número 0 feito de excertos de dezanove edições de Blah Blah Blah e de um convite para uma festa) que, para marcar dez anos de Lux, se transformaram os flyers mutantes, feitos fanzine, feitos revista, num jornal: este, o jornal Lux Frágil, mesmo que, internamente, se continue a optar pelo termo pasquim (adicionando-lhe amiúde o termo anarca). Na altura, tal como agora, não sabíamos nada excepto duas ou três coisas muito simples e sinceras. Afinal, o que é, pode, ou deve ser o jornal de uma discoteca-bar-sala-de-espectáculos-acrescentem-o-que-quiserem? Ainda não sabemos, nem queremos saber. Queremos fazer. E fazemos. Para falar de música, de músicos, de DJs, de noite, de dança. De coisas de agora e de coisas de sempre. Coisas parvas e coisas sérias. Mentiras e verdades. Ficção e realidade, prosa e poesia, à mistura com algumas sugestões de tempero, existencial ou culinário, regado de questões, retóricas ou sentidas. Continue reading ‘A última página?’

Quimpostor

bussola

Vou-vos dizer a verdade: já não me apetece mentir.

Alguém tem o número do Lavoisier?
Ele tem Facebook?
Precisava de falar com ele.

Tenho vindo a perceber que começar de novo pode ser tão difícil como continuar. Começar de novo é cada vez mais difícil porque cada vez mais vamos sentindo que não há tempo para perder. Mas há. Todo o tempo é para perder. Acho mesmo que é a única maneira de ganhar. Parece que só entendemos a ideia de paciência quando passamos a olhar para ela como um luxo, quando percebemos que sempre devíamos ter sido pacientes. Aprendemos a esperar quando já não temos tanto tempo para o fazer.
Não existe começar de novo, existe começar outra vez. Mesmo que queiras, nunca viajas sem bagagem. Somos todos preciosos, porque somos todos passaportes palimpsestos – por baixo do carimbo de onde estamos estará sempre o carimbo de onde viemos e assim sucessivamente. Novos são os destinos. O viajante é todas a viagens que fez e que vão condicionar todas as outras viagens futuras, ao futuro. O importante é a viagem, porque todas as viagens são de voltar a casa, seja lá onde isso for, o que isso for, seja lá quem isso seja. Continue reading ‘Quimpostor’

As cabeças de Amadeo

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Sabe a madrugada ventosa e terra húmida, a passeio sob os carvalhos e a galope de cavalo, Amadeo (1887-1918) sabe a “A” maiúsculo com um “e” encolhido a querer acrescentar e mais e ainda e depois e além disso. Segundo as leis da gravidade, devia o “e” descer pelas encostas do “A”, mas sobe a galope para ver o horizonte limpo e frio mal nasça o sol. Amadeo, “pintor avançado” ou “bizarro colorista”, sabe a começos, sabe de olhares primeiros e soube descobrir cores alegres e sinistras. Amadeo sabe bem.
Quando ainda não sabia reconhecer os nomes recortei de um jornal a minúscula reprodução da tela “Galgos”, da qual, por não saber de nomes, desconhecia a celebridade. Durante anos conservei por perto, em paredes e cadernos, aquele fragmento amarelado onde vibravam cores por adivinhar: o contraste preto e branco da atenção dos cães, a maquilhagem mascarada das lebres suspensas, as subtilezas das montanhas, um laranja a prometer luz, as massas do céu num verde que talvez seja azul a romper. Não sei agora quando a cor me atingiu, mas lembro-me de ter passado não há muito uma pequena vida face a face com a cena a dois palmos do chão vencendo o peso e a circunstância. Fui interrompido pelo segurança do museu. Desconheço o que me atraiu na imagem do velho jornal, mas posso inventar: foi a suspensão. Nada há de mais prometedor, e portanto adolescente, que esse exacto momento em que o olho se concentra num ponto, os músculos se retêm para nos manter suspensos, prestes a, uma vez marcados com as tatuagens do combate, nos atirarmos que a vida é toda para diante. Os galgos e as lebres, caçador e presa, estão ambos hipnotizados pelo momento adolescente da partida. Nunca uma cena parada teve tanto movimento, eis a verdadeira natureza morta. Amadeo sabe a pontos de partida e a vida pintou-o como adolescente, no instante em que se erguia para se atirar. Continue reading ‘As cabeças de Amadeo’

Fado marialva com óculos escuros e after-hours

Querida Lisboa,

A verdade, pelo menos agora, é que me pareceste, durante muito tempo, aquelas mulheres com quem não sabemos se nos apetece ir para a cama e casar no dia seguinte ou bater com a porta uma e outra vez até que não voltamos mais.

Talvez sinta esta inquietação porque nos abandonámos há alguns anos. Tu estavas certamente cansada das minhas críticas e das minhas ameaças de emigração. Eu, de malas feitas, apanhei o avião um dia depois do Natal, seguro de que não eras mais que uma cidade que repetia infinitamente o mês de Dezembro, enrolada numa película de chuva e povoada por pessoas de fazenda, com roupas estioladas – criaturas nómadas que viajam todos os dias entre uma máquina de fotocópias a ranger dos parafusos e um apartamento de três assoalhadas ao fim de duas horas de trânsito.
Mas agora, anos depois, regressei, aluguei uma casa com os sinos de uma igreja como banda sonora e começo a descobrir que não ficaste quieta, de socas e bata, apoiando as mamas no parapeito, olhando a vida dos outros na rua e tendo como única companhia o canário que apita dentro de uma gaiola. Em todo este tempo, deixámos de ser crianças envergonhadas, num recreio, que usam um pontapé nas canelas como artimanha de sedução. Estamos mais elaborados nos gestos e na eloquência. Bebemos gin com pepino. Conhecemos restaurantes secretos em outras cidades. Temos amigos estrangeiros. Mas estamos também mais directos ao assunto, mais crus, afinal, com esta idade, não andamos aqui para enganar ninguém. Continue reading ‘Fado marialva com óculos escuros e after-hours’

Filologia Livre da Pop do meu poluído imaginário

THE END,
JIM MORRISON,
1967

As coisas começaram como tudo começa. Uma pequena mensagem em stencil escrita na parede de pedra do lado interior do logradouro da minha sub-cave à Lapa. Reparei nela durante vários dias até me dar conta que não deveria estar ali, o que considerei como um nítido sinal da diminuição das minhas capacidades, um doce e adormecido embalar da perspicácia.
E isso era quase tão preocupante como a imagem que surgia, agora evidente, aos meus olhos tanto no seu significado como na sua forma. Era uma espécie de imagem de Cristo, semelhante à do sudário mas feita na pedra. Em vez de Cristo representado, estava eu no seu lugar, com coroa e tudo.
Fui mais uma vez traído pela minha própria soberba.
O facto de ter interrompido o afastamento dos grandes palcos mundiais da desencriptação para partilhar convosco neste jornal as minhas pequenas análises sobre a verdadeira verdade das grandes letras da pop, colocou de novo o foco de atenção sobre o perigo que representa alguém com os conhecimentos e a vontade de desmistificar as grandes construções mitológicas da actualidade.
Daí à alusão a um sr. peppas mártir, na forma de stencil urbano foi apenas um pulo por cima do meu muro.
Sei quem eles são, mas não vou dizer o seu nome. Primeiro, porque vocês ficariam a sabê-lo e obviamente passariam também a ser alvos preferenciais da fúria asséptica dos mestres mundiais da ilusão. Segundo, porque não se deve dar nome ao mal, para que ele não se sinta em casa.
Terceiro, porque no fim deste artigo vocês irão esquecer-me para sempre, pois encriptei neste texto um desmemoriador. Portanto, na verdade isto não será uma despedida dado que vocês nunca se lembrarão de alguma vez me ter lido. Continue reading ‘Filologia Livre da Pop do meu poluído imaginário’

O Outro

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Capítulo anterior: Após várias investidas da Carina, Zé Miguel tem uma recaída e volta a dormir com ela. / Continua a dar-se com a Adriana e o Pedro, com quem planeia ir ao Sónar, em Barcelona. / Mas não é o único: a Tânia, a Carina e a amiga, o Nuno Paz e o poeta, cada um por si, tencionam ir ao Sónar. / Depois de uma noite no Lux, reencontra o poeta na varanda. (o capítulo anterior pode ser lido em blog.luxfragil.com)

Folhetim de Maria Antónia Oliveira & António Néu

Capítulo IX

“Illusion is the first of all pleasures.”

— Então, onde é que se meteram? Já estou na porta 10!
— Mas, ó Zé Miguel, ainda faltam duas horas, man, vou sair agora de casa!
— Ainda estás em casa?! Olha que perdemos o avião!
— Espera aí no bar, vai bebendo uma cervejinha…
Zé Miguel desligou, descontente com a demora do Pedro e da Adriana. Conformado, e com medo de parecer parolo (nunca tinha apanhado um avião), dirigiu-se ao bar próximo. A meio da segunda imperial, ouviu um sotaque brasileiro:
— Oi minino!!! Que é que cê está fazendo aqui? Zé Miguel, não é mesmo?
A um primeiro olhar, não reconheceu a cara sorridente e tumefacta que se chegava a ele. Sim, era mesmo ela! A Suely do Finalmente! Sorriu-lhe, um tanto embaraçado de a encontrar ali, de dia, com as maçãs do rosto a rebentar, de inchadas, e as longas pernas metidas nuns leggings de licra preta, muito discreta.
— Olá. Vou para Barcelona, para o Sónar. Sabes, o festival…
— Cê vai em Barcelona? Então vamos junto! Ai minino, cê sabe que eu agora vou tentar minha sorte em Barcelona! Aqui já não tava dando não. Tenho uma amiga lá, a Rancia de Jordânia… ela me propôs fazer um
showzinho na Discoteca Metro. Cê conhece? Todo o mundo conhece! É super-chique! E estão precisando lá de uma Cármen Miranda! O Tico-Tico tá Tá outra vez aqui O Tico-Tico tá comendo meu fubá O Tico-Tico tem, tem que se alimentar Que vá comer umas minhocas no pomar! Ahahahah, vai ser a maior gozação! Cê tem de ir ver, minino, vai amar!
Estupefacto, Zé Miguel olhava para ela, a fazer passos de dança miúdos em frente dele, enquanto cantava. O barman, que era brasileiro, piscava-lhe o olho e batia o ritmo com o shaker.
— Eh lá! Isto parece o Morocco Club! – Era a Adriana que chegava, curiosa e de olho brilhante.
Quando finalmente se apeou do autocarro na Praça da Catalunha e desceu as Ramblas, Zé Miguel ainda cantarolava O Tico-Tico ti O Tico-Tico tá, sob o olhar enternecido da Adriana, que tinha feito amizade instantânea com a Suely no avião – “Ai, esta tua amiga é o máximo! Onde se conheceram? Zé Miguel, tu és uma fonte de surpresas!…” Zé Miguel ficou contente.

Barcelona, segundo dia: Comprei um moleskine. A Adriana disse para eu fazer uma espécie de caderno de viagem, e ir escrevendo o que se passasse. Ela disse que era provável que me esquecesse do que ia viver, e também que eu fizesse sempre um esforço para ir registando.  Continue reading ‘O Outro’

A importância de ser: Matthew Dear

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A música electrónica de dança não tem parado de mudar. Essa mudança decorre de alterações nos rumos estéticos e nos géneros, reflecte a simbiose com a brutal e imparável evolução tecnológica, abraça outras artes e pretende cada vez mais encenar-se em palco como um espectáculo completo. Mathew Dear/Audion e Will Calcutt trazem “Hecatomb” ao Lux.

Quem leu o jornal de Junho, terá reparado que na página três, se antecipavam alguns dos convidados deste mês. Ao alto, de lado naquela página, na companhia da Magda, do DJ Vibe, das quintas D.I.S.C.O.Texas, da Cama de Casal e do Carl Craig, podia ler-se “Dia 17: Matthew Dear/Audion”. Podemos desde já começar por editar uma errata e informar que, onde se lia “Dia 17: Matthew Dear/Audion”, deveria ler-se: “Dia 17: Matthew Dear/Audion/False/Jabberjaw”. Não se pode falar de Matthew Dear esquecendo parte dos seus alter-egos. É necessário conhecer as diferentes cores deste camaleão para lhe dar todo o valor.

Matthew Dear tem desde logo uma característica pouco vulgar nos produtores e DJs de música de dança: é tão aclamado no meio electrónico dos clubes, como nos palcos onde apresenta essa espécie de electro-pop cinza e romântico do último e muito elogiado disco “Asa Breed”, mais a série de remisturas que lhe sucederam. Só isso justifica que os elogios se estendam da imprensa de música de dança, à imprensa mais arty ou tipicamente rock, casos da Wire e da Rolling Stone. “Asa Breed” colocou Matthew Dear numa ponta desse território com fronteiras cada vez menos definidas que é a música electrónica, ao lado de Louderbach (de Gibby Miller e Troy Pierce, com disco recente editado pela M_nus) e fazendo lembrar nomes como Coil e Death in June, por mais insólito que isso possa parecer à primeira vista (ou audição). Continue reading ‘A importância de ser: Matthew Dear’

Oráculo 07/09

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Os homens são de curta memória, e às vezes tanto melhor para eles. Mas os deuses não. O Oráculo deixa-te aqui uma versão da História dos teus últimos meses, com uns pozinhos para o futuro.
Para além do habitual Signo Solar, lê também os do teu Ascendente e, se possível, da tua Lua, e depois faz a síntese. Assim terás um filme mais completo, porque se leres só o teu Signo talvez não te espelhe assim tanto. Podes saber estes dados astrológicos em www.astro.com, e depois volta cá. Recebe a tua história com um espírito aberto, e vais ver que és o teu próprio motivo de inspiração!
E agora, continuemos viagem. Hasta siempre, porque a vida é mesmo para diante.
1680 = 16+08 Ø = 24+ Ø = 02+04+ Ø = 06 + Ø

Continue reading ‘Oráculo 07/09′