Faz 99 anos a República, a velha senhora de seios fartos que se quis oferecer a todos. Velhinhas mas enxutas estão ainda as três filhas que se propunham ainda mais oferecidas – a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade. Imperfeita como todas as outras, a Democracia é a relação que vamos mantendo com estas senhoras, fazendo votos de que tudo continue pelo melhor. Mas dizendo a verdade e aqui entre nós, o romance foi-se perdendo e a Democracia já não é grande razão para dançar.
Já não marcamos encontro com elas nas urnas nem nos sentamos a conversar tanto quanto costumávamos, naquele nosso lugar de sempre em São Bento. Tivemos que inventar outras maneiras de manter a tusa e o fogo vivos. Começamos a marcar encontros à noite, não em parlamentos e sofás de sofistas, mas em danceterias e outros sítios de engate. Voltamos a encontrar as filhas da República na noite e na música, debaixo das luzes e abraçados pelo som. Voltamos a acreditar que a Liberdade, a Igualdade e a Fraternidade estão vivas, sexys e de boa saúde porque o alto e o grave da música nos empurraram uns para os outros, de igual para igual, libertando-nos para nos sentirmos mais juntos.

João Onofre, “Pas d’action”, 2002
Quem é que consegue resistir mais tempo? Quem é que aguenta mais? Um grupo de bailarinos da Companhia Nacional de Bailado foi filmado pelo artista João Onofre em 2002. Primeiro parados, em posição de descanso, depois em pontas (“sur les pointes” e “demi-pointes”). O que vemos no resto do vídeo é uma sucessão de desistências, observamos o limite de cada bailarino, quanto tempo aguentam em pontas, quem é que primeiro volta à posição inicial de descanso.
Este mês a nossa obra de arte em formato “poster” é um frame do vídeo “Pas d’action”, o momento em que todos os performers se encontram no seu esplendor, no máximo da sua força. “Pas d’action” é também o termo técnico que no ballet clássico significa um conjunto de passos que constituem uma narrativa. Vamos lá então desenrolar esta história. SP
“Pas d’action”, 2002, video, colour, sound, 4’16”, 237 x 324 cm.
Cortesia Cristina Guerra Contemporary Art (Lisboa), Galeria Toni Tàpies (Barcelona), Galleria Franco Noero (Turim) e I-20 Gallery (Nova Iorque).
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