Archive for the 'Outubro 2008' Category

Nº 1 / Outubro

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Canibais dançando com astronautas

São noites raras e porém fatais. A lua pode estar cheia ou nem por isso, podemos ser só nós com uma cheia no coração. Começa com um redemoinho inquieto que nos titila a vontade e rapidamente se transmuta em compulsão para transbordar em comoção. Há noites assim em que ouvimos gritar dentro de nós uma ordem imperiosa: dançar! dançar! dançar! E não há maneira de a amordaçar.

Oh não, nada a ver com as noites rotineiras, uns instantes distractivos na pista de dança, entre dois copos e três conversas. Essa dança sabe bem mas não passa de entretém. Não é disso que falo. Falo de urgência, desvario, obsessão. Há noites em que precisamos de dançar como se disso dependesse a nossa salvação. Ou a nossa ressurreição, talvez seja mais justo. 

De onde vem o redemoinho? Em que paisagem nasce ele, o futuro furacão? (Pois sim, tive uma t-shirt que dizia: “El Ninõ take me with you” e poderia ser uma boa farda para ir dançar.) Existem condições meteorológicas propícias, como a tal da lua cheia. Mas, geralmente, a lua possante e inquietante não passa de mero pretexto e décor conveniente. A meteorologia sentimental, essa é que é ela. Pode acontecer quando sentimos que nos apaixonamos, pode suceder quando nos baralhamos, até pode dar-se quando celebramos. Pode simplesmente ser a vontade de respirarmos. Mas com o corpo todo. 

Nessas noites, corremos toda a cidade. Procuramos um albergue musical, uma cabana calorosa, uma clareira nocturna. E quando a realidade se compadece com as nossas ânsias, chegámos lá. No recreio da escola, quando jogávamos à apanhada, existia um canto onde ninguém nos conseguia apanhar nem nos podia tocar. Chamava-se o “coito”. Mais tarde, aprendemos-lhe outro significado mas a ideia é sempre a mesma: um lugar onde existe a possibilidade de nos salvarmos e onde podemos saborear o seu prazer exultante. Em plena cumplicidade, a liberdade. Continue reading ‘Canibais dançando com astronautas’

10×10=10

E se não houvesse Lux?

A vida seria a mesma? Faríamos as mesmas coisas? Gostaríamos da mesma música? Teríamos os mesmos amigos, os mesmos amantes? Seríamos as mesmas pessoas? Aposto que não.

Toda a gente tem uma história com o Lux. Mesmo os que nunca entraram, ou os que nunca sequer tentaram. Mesmo antes de abrir, eu já tinha uma história com o Lux. Ofereceram-me 10, depois 15 contos (foi no tempo do escudo) pelo convite da caixa de plástico branco. Fui à festa. E ainda tenho a caixa e as fotos dentro e, mesmo agora, continuava a não fazer o negócio. Não foi bem de propósito, mas fui guardando memorabilia do Lux. Flyers, convites, bilhetes, caixas de fósforos (encontrei uma há dias, foi bem útil!). Mais histórias. Não existiriam da mesma maneira se não houvesse Lux, porque o cenário também é parte da peça e a arquitectura do espaço facilitou muitos encontros e desencontros, às vezes mesmo tropeções e algumas quedas, do tipo físico e emocional. Noutro sítio, com as mesmas pessoas e circunstâncias idênticas, as coisas poderiam até ser parecidas, mas nunca seriam iguais. Isto é da ordem da matéria e da forma das coisas, e também é o que faz o Lux, Lux. Mas há o espaço e há como se preenche. A música foi o que sempre me levou ao Lux. O que sempre nos levou e ainda leva. Lamento as noites do Lux a que não fui e queria ter ido, Goldie, Herbert, Moodymann, mas tenho memórias vivas de Cinematic Orchestra, das primeiras noites 2manydjs, Mocky, Jamie Lidell, DJ Shadow, LCD Soundsystem, Greg Wilson, Buraka Som Sistema, Animal Collective… noites de sábado, quinta ou sexta, Rui em baixo e Yen no bar, Dezperados ou Tiago + Nuno e dexter + Zé Pedro Moura ou Nanau. Subimos e descemos escadas à procura da surpresa, do hit esquecido, do maxi novo, do bootleg mais improvável, da batida infalível, do groove hipnótico, do conhecido e do desconhecido. E das outras pessoas que, tal como nós, procuram música libertadora que faz dançar e pensar (quem estiver para isso, claro).

Fui ao site contar os nomes que passaram pelo Lux desde que abriu. Desisti no final de 1999, em Tim ‘Love’ Lee, quando percebi que já ia no 64… não é preciso fazer as contas a todos os que vieram para chegar à conclusão de que 10 anos de Lux também são 10 anos de contacto directo com os melhores DJs, produtores, bandas e projectos, acompanhando o fluxo criativo e as suas curvas. Prince em 1998, Rinôcerose em 2000, Liars em 2003, Digitalism em 2007. 10 anos não se resumem. Mas podem multiplicar-se. O que virá a seguir? Aceitam-se apostas.

Para já, prolonga-se a celebração desafiando a matemática: 10X10=10 Continue reading ‘10×10=10′

Quimpostor

Vou-vos dizer a verdade: eu minto.

Porque a mentira é sexy e porque na maior parte das vezes é mais segura que a verdade, a minha nova coluna não terá muito mais do que fraudes descartáveis e filosofias de elevador. Porque quero que esta coluna seja o mais cervical possível, vou-vos oferecer uma leitura promíscua e honestamente estúpida. Sabem quando o zapping corre bem e apanham cenas fixes? Vou tentar pôr isso por escrito com a certeza desde já, que um falhanço é muito bom entretenimento. Quero, da maneira mais inconsequente possível, acelerar partículas até a um bing bang da tanga, para descobrirmos alguma verdade na mentira e percebermos onde está a treta da honestidade. Vá lá ver, a ver vamos.

A minha mãe não sabe que eu fumo. 

Os episódios que melhor guardas dos anos quando ainda te deixavas crescer, são aqueles que não podes contar aos teus pais. Estas mentiras são mãos cheias de terra que separam o novo do velho. Às coisas que não sabemos dos nossos pais e ao que eles desconhecem dos seus filhos, chama-se vala geracional (ou evolução, como quiserem). E é dessa vala que vem a terra mais fértil, onde se devia plantar cultura. Um pai nunca poderá ser um melhor amigo. 

Lembrem-se que minto e lembrem-se que não sou o único. 

Com 5 anos descobri que a minha irmã, com 14, tinha começado a fumar.  

“Aaaaiiiaaaaaíííí!!! Vou dizer.” Um cintilar de pânico acendeu-lhe os olhos, logo seguido de um rasgo de génio maquiavélico, como só uma miúda de 14 anos consegue ter. Tirou das Lois um maço mole de SG Filtro, e sacou um cigarro. O que achei estranho porque ela já estava a fumar. Será que ia fumar dois cigarros ao mesmo tempo? Só para me mostrar que era muito mais rebelde que eu? Eu disse génio, não disse estúpida. Acendeu esse cigarro com um Quinas de caixinha. Pôs-me uma mão no ombro e apertou-o. Com a outra mão enfiou-me na boca o SG Filtro que tinha a mais e disse: “Chupa.” Continue reading ‘Quimpostor’

A cona de Picasso

Mal o mundo suspire de cansaço, eis a hora certa. Pouse-se o rosto na coxa como um cair de tarde e admire-se. Não basta sonhá-la, como se nunca tivesse existido; não interessa invocá-la, resgatando-a aos confins da memória ou às páginas de um livro; não serve sequer vê-la: temos que a dizer, devemos escrevê-la. Só assim entramos nela verdadeiramente. 

Ora parecendo que o pintor possui bastantes, algumas até emprestadas, necessário se torna sacrificar ao menos uma vida para encontrar a que nos explicará a humidade e as palavras. Pode esconder-se num triângulo colorido que mija um oceano ou naquele leão de juba negra com um único olho, mas são apenas faces, lados de um cubo que roda em vertigem para nos oferecer enganos, tentações, delícias, horrores. 

Por exemplo. As gigantescas, de mãos rudes abrindo sucessivas camadas ovais, parecem diamantes por polir, mas são entradas para o labirinto. Outras que parecem rodeadas de pequenas labaredas, de fósforos moles, fingem-se de sóis para falar de amor. Não desgosto das que se vestem de nuvem, mas a sua macieza contém o perfume de lugares quentes e secos, onde se torna difícil respirar e plantar flores. As que surgem como traço apenas a rasgar o triângulo das coxas fazem as vezes do sussurro antes do desmaio, da queda: “estás bem? Não!” E eis-nos no chão. A seta indica o que nos aguarda, a terra e a morte. Estes sinais possuem o calor da vida, mas não esquecem a frieza da morte, seja de que tamanho for, pequena ou em por isso. Continue reading ‘A cona de Picasso’

Da varanda do Lux

Recordo-me bem: era a nossa primeira vez, 24 para 25 de Abril, noite DIY t-shirt, no Lux, estávamos na varanda quando nos beijámos. Mais tarde, dirias que havia sido corajoso, talvez porque quando te conheci não estavas grande coisa, fragilizada, dúvidas com anteriores relações, incertezas com o futuro. Chego eu, confiante, intenso, seguro, ajudo a tirar-te da merda, digo que és linda, que vales imenso. Partilho o mais íntimo de mim, sinto que também o fazes comigo, mas vacilas. Queres acreditar em mim. Mas não estás certa. Sentes-te dividida. Digo-te para não teres medo de contemplar em frente. A minha segurança, a certeza do meu amor, atrai-te, mas também te assusta. Começo a relacionar-me contigo como se tivesse que cuidar de ti. Contas-me enigmas, anseios, choras à minha frente. Protejo-te, abraço-te, cubro-te. És linda. Criativa. Espontânea. Calorosa. Nunca me senti tão bem, tão eu próprio, com alguém. Mas, nesse processo, esqueço-me de mim. Do que sou, quero, desejo. Estou sempre a ver aquilo que a relação pode ser, mas às vezes esqueço-me daquilo que realmente é. Talvez me seja cómodo ter uma relação assim, onde sinta que sou o protector. Talvez me seja difícil, afinal, pensar numa relação, como tanto quero, de igual para igual. Onde ambos olhem na mesma direcção. Madura. Autêntica. Continue reading ‘Da varanda do Lux’

No melhor pano cai o Noddy

Não foi fácil conseguir esta entrevista. Não só porque se trata de uma entrevista impossível, mas também porque o boneco andava muito atarefado com o início das aulas. “É a altura do ano em que tenho mais trabalho”. A proposição era facilmente verificável. Não havia hipermercado ou loja de brinquedos onde o gajo não estivesse. Eram prateleiras e prateleiras apinhadas com cadernos do Noddy, livros do Noddy, lápis do Noddy, canetas do Noddy, tudo-e-mais-alguma-coisa do Noddy. O boneco tinha o dom da ubiquidade e estava por todo o lado. 

Mas eu estava decidido. Era esta a figura a entrevistar. Precisava de saber que personagem era essa que andava a aliciar toda uma geração de futuros contribuintes. Seria uma boa influência? Tomaria drogas? Sairia à noite? Que locais frequentava? Iria à missa? Quais os seus gostos sexuais? Faria sexo em grupo? Que música ouvia? 

Decidi, por isso, insistir. E depois de muito lhe telefonar, acabei por conseguir a entrevista. Marcámos encontro no hiper da Amadora. O boneco andava em digressão pelo centros comerciais do país numa espécie de concentração tuning de jovens pais e carrinhos de bebé. “Encontro-me contigo na praça da alimentação”. Foi o combinado. Mas para grande espanto meu apareceu um boneco todo branco:

- Não era suposto usares umas roupas mais coloridas? – perguntei intrigado. 

- Sim, habitualmente uso umas roupas vermelhas e amarelas a condizer com o carro. Mas eu hoje sou o Noddy de pintar. É por isso que estou todo de branco.

- Ah!!! – exclamei eu – Por momentos pensei que vinhas de uma dessas festas de fim de Verão em que toda a gente se veste de branco. Mas afinal és apenas um boneco para miúdos que já pintam.

- Não, geralmente não vou a esse tipo festas. A não ser que haja crianças. Se houver crianças, é bem provável que me vejas por lá.

Este boneco começava a assustar-me. Tinha 47 anos, insistia em vestir-se de miúdo e conduzia um táxi amarelo, naquilo que mais parecia ser uma versão politicamente correcta do Robert De Niro em “Taxi Driver”. Continue reading ‘No melhor pano cai o Noddy’

O Outro

[Folhetim]  I. Despertar na Rive Gauche

Acordou com uma dor aguda no ombro esquerdo. Mexeu-se muito lentamente e olhou em volta. Olhou mais, tentando perceber onde estava. Endireitou-se no sofá e teve uma tontura. 

A última coisa de que se lembrava era de estar à conversa naquele mesmo sofá com a miúda gira da Capela… Grande merda: agora ali estava, numa casa no Barreiro, com uma ressaca brutal e – apalpou os bolsos – sem dinheiro.

O chão da sala estava cheio de discos, cinzeiros cheios e garrafas de cerveja vazias. Calçou os ténis e aventurou-se pela casa: ninguém. Na mesa da cozinha descobriu um bilhete: “Zé Miguel fomos até à praia quando saíres fecha a porta vemo-nos no Bairro”. Bonito! Quem o mandava ir em histórias de só-mais-um-copinho, para casa de pessoas que mal conhecia? Agora, era meter-se à estrada: chegar aos barcos (onde seriam?), atravessar o rio, subir ao Bairro. E a miúda, teria ido também à praia? Se calhar, ao Meco… O que valia era ter tido um convite do Kaló para ir ao Mexe ouvi-lo tocar. E talvez ela estivesse lá.

Se havia coisa que Zé Miguel não se podia dar ao luxo era de desperdiçar uma oportunidade para engatar. Com 25 anos, tinha tido uma vaga namorada em Coimbra, quando lá andara a estudar, também muito vagamente, Direito. Desde que viera para Lisboa, apenas casos passageiros com duas colegas da Nova, quando ainda frequentava as aulas de Antropologia. Tinha pensado que em Lisboa seria diferente. Principalmente desde que se tinha mudado para o Bairro Alto, as possibilidades pareciam infinitas. Mas, por um motivo ou outro, que ele próprio não sabia bem explicar, nunca conseguia levá-las para o quarto – àquelas que ele queria, claro. 

Quando chegou ao Terreiro do Paço, apressou-se. Já não dava para ir a casa mudar de roupa antes de entrar ao serviço no call center. Cheirou-se. “Tanto pior”, pensou. “Vou assim mesmo. Logo tomo banho e visto a t-shirt new rave para ir sair.” Tinha ido às compras no dia anterior e, sem tempo para ir a casa a seguir ao trabalho, a correr para os anos do Manel, deixara a t-shirt no cacifo, por estrear. Tentou lembrar-se da última vez que tinha tomado banho. Pensou na mãe, e no que ela diria. Ora! Lisboa não era Viseu. Tanta coisa para fazer! Havia que acompanhar o andamento.

No metro para o Lumiar, recebeu um telefonema da mãe. Tentou disfarçar o tom abatido da voz.

— Olá. Estava mesmo a pensar em ti. Já falaste com o pai? Continue reading ‘O Outro’

Muitos lados da mesma história

O cobertor sujo de Linus, o melhor amigo de Charlie Brown. Algo do qual não nos podemos separar. Esta é apenas uma hipótese. É bom construir histórias a partir das obras do artista britânico Ryan Gander, que vem a Lisboa inaugurar a Marz Galeria. 

Há pessoas que gostam de acumular coisas, papéis, por acharem que irão ser necessários algum dia, para alguma coisa, para o que for. Um dia vão ser essenciais e vamos sentirmo-nos tão bem por os termos guardado. Enquanto lia sobre o trabalho de Ryan Gander lembrei-me de um postal engenhoso que uma vez apanhei num lugar qualquer e que deve com certeza estar bem arrumado dentro de um livro ou no meio de outros tantos pedaços de papel que enchem prateleiras. A frente e as costas desse postal eram iguais, ambos se assemelhavam ao verso de um postal vulgar, com lugar apropriado para escrever a morada, colocar o selo e escrever a mensagem. Não tinha frente, não tinha “imagem”, nem nenhum slogan. Apenas uma frase adornava ambos os lados na perfeição – em fonte pequena e discreta – “There’s two sides to every story”/ “Existem sempre dois lados da mesma história”. 

Ryan Gander gosta de contar histórias e construí-las das mais variadas maneiras. Tudo pode servir – a sua mãe, um trabalho de um outro artista, o vídeo, uma animação, um argumento, uma instalação, uma escultura, uma pintura, um anúncio, um livro, uma fotografia, uma revista, a linguagem, outros criadores, uma conferência, uma entrevista. Continue reading ‘Muitos lados da mesma história’