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Mário Cesariny, Lisboa 9 Agosto 1923 — 26 Novembro 2006
O HOMEM É UMA MULHER QUE EM VEZ DE TER UMA CONA TEM UMA PIÇA, O QUE EM NADA PREJUDICA O NORMAL ANDAMENTO DAS COISAS E ACRESCENTA UM TIC DELICIOSO À DIVERSIDADE DA ESPÉCIE. MAS O HOMEM É UMA MULHER QUE NUNCA SE COMPORTOU COMO MULHER, E QUIZ DIFERENCIAR-SE, FAZER CHIC, NÃO CONSEGUINDO COM ISSO SENÃO PRODUZIR MONSTRUOSIDADES COMO ESTA FAMOSA “CIVILIZAÇÃO OCIDENTAL” SOB A QUAL SUFOCAMOS MAS QUE, FELIZMENTE, VAI DESAPARECER EM BREVE.
PELO CONTRÁRIO, A MULHER, QUE É UM HOMEM, SOUBE SEMPRE GUARDAR AS DISTÂNCIAS E NUNCA PRETENDEU SUBSTITUIR-SE À VIDA SISTEMATIZANDO PUERILIDADES COMO FILOSOFIA, AVIAÇÃO, CIÊNCIA, MÚSICA (SINFÓNICA), GUERRAS, ETC. ALGUNS PEDANTES QUE SE TOMAM POR LIBERTADORES DIZEM-NA “ESCRAVA DO HOMEM” E ELA RI ÀS ESCÂNCARAS, COM A SUA CONA, QUE É UM HOMEM.
DESDE O ÍNICIO DOS TEMPOS, ANTES DA ROBOTSTÓNICA GREGA, OS ÚNICOS HOMENS-HOMENS QUE APARECERAM FORAM OS HOMENS-MEDICINA, OS HOMENS-XAMÃS (HOMOSSEXUAIS ARQUIMULHERES). ÊSSES E AS AMAZONAS (SUPER-MULHERES-HOMENS). MAS UNS E OUTRAS ERAM DEMAIS DEMAIS. E DESDE O INÍCIO DOS TEMPOS QUE PENÉLOPE ESPERA O REGRESSO DE ULISSES. MAS O REGRESSO DE ULISSES É O HOMEM QUE É UMA MULHER E A MULHER QUE É UMA MULHER QUE É UM HOMEM.
Pena Capital, 1957
(Assírio & Alvim, 1982)
Percebi há pouco tempo, que as pessoas que situam a vontade de viver durante a noite, são consideradas “espécie” pela parte de população que se decidiu por um quotidiano diurno. Estou a falar de moral, não me refiro à disciplina. Porque conheço dezenas de pessoas da noite disciplinadas. Que decidiram mesmo presentear o dia-a–dia, com alvoradas constantes, ultrapassando o obstáculo que podem ser noites passadas em claro. Vindo assim do escuro, para enfrentar a luz da realidade. Nem que seja somente por uns dias, para mais tarde serem levados novamente para a calma da escuridão.
Existem mesmo seres nocturnos que se adaptaram eternamente às regras do dia. Aos horários impostos. Eles, aceitam a moral daqueles que pensam que a noite não traz nada de útil e convivem com ela. Mas libertam-se quando conseguem. Sabem da magia que o outro lado do dia esconde. Em bancos, consultórios médicos, parlamentos ou teatros de vida inventada. Estamos constantemente rodeados de pessoas da noite que vivem também de dia. E acredito eu, não haver distinção possível – acredito na mistura dos dois. Ou acredito que todos, todos nós tenhamos conhecido pelo menos uma vez o sabor de noites passadas em claro. A reconstruir o mundo, a esquecer mágoas na pista de dança. A procurar soluções no brilho das luzes que se acendem no escuro. Para que não se falhe nesta e na próxima vida. Continue reading ‘Somos cavaleiros, cavaleiros nocturnos.’
Vou-vos dizer a verdade: eu minto.
Vocês não têm culpa nenhuma, eu é que não quero gastar dinheiro em terapia. Estou com uma pequena crise de identidade, e resolvi trazê-las – a crise e a identidade - para a praça pública. Isto ajuda-me. Se vos ajudar a vocês, nem que seja a passar o tempo, melhor ainda.
Quero ser como o Nélson Ned, o pequeno gigante da canção brasileira, o anão romântico, aquele que tem o coração do tamanho do corpo. Quero mesmo que o meu coração ocupe o meu corpo todo. Quero isso mas não quero aquilo da honestidade. Para deixar o meu coração ocupar o meu corpo todo, tenho de mudar, muitas vezes, harmónica, dissonante, violenta e gentilmente.
Para mudar, preciso de acreditar numa nova verdade para mim, em mim. O que quer dizer que a minha anterior verdade deixa de o ser. Mas foi sempre assim, crescer tem sido deixar para trás um rasto de mentiras com que me dei bem. Ser honesto é não ter problemas em aceitar que a verdade é descartável. A verdade é hipócrita. Continue reading ‘Quimpostor’
Entrevistas Impossíveis de Joaquim António Rocha
Eram cinco da manhã e o meu telemóvel tocava insistentemente. Levantei-me, estremunhado, e apressei-me a atender a chamada. Do outro lado, alguém gritava:
— Mataram a galinha dos ovos de ouro! Mataram a galinha dos ovos de ouro! Mataram a galinha dos ovos de ouro!
Repetiram assim mesmo – três vezes. Eu, aturdido, dei dois passos atrás e sentei-me na beira da cama. Numa espécie de experiência do eterno retorno, acabava de confirmar a estranha tendência da humanidade para repetir a sua história no que ela tem de pior: acabar com a galinha dos ovos de ouro.
— Mas como? – perguntei eu ainda incrédulo – Foi com a gripe das aves? Bem que eu lhe disse para se agasalhar…
— Não, nada disso. Desta vez o H5N1 não teve nada a ver com o assunto. Consta que foi sobrealimentada pela mão invisível do mercado. Comeu tanto que rebentou. Aconteceu tudo no galinheiro de Wall
Street. Um espectáculo medonho. Sangue por todo o lado.
Assistimos hoje a várias tragédias humanas, mas os meus ouvidos eram demasiado frágeis para ouvir tamanha atrocidade. Eu estava destroçado. Continue reading ‘A grande cabidela’
Vamos fazer um “shortcut” e saltar a parte do Inverno. Os Cut Copy vêm ao Lux.
Numa manhã de Sábado, estamos nós a regressar depois de uma óptima
sexta-feira à noite e já os australianos estão a pensar em sair outra vez de casa para dançar. Estamos nós rabugentos, a habituarmo-nos à chuva outra vez, estão eles, sem pensar duas vezes, a largar casacos em casa. Os australianos, por fuso horário e assim em traços largos, estão mais avançados que nós. É o que parece, assim em tom de piada fácil entre hemisférios, daqui de cima.
O “buzz” desta nova onda australiana do que se pode chamar de pop dance (ou indie dance ou seja o que for) começou há alguns anos, mas este Verão teve um álbum e um grupo de nome fácil que liderou as atenções. Um nome que utiliza as palavras “cut” e “copy” é hoje, mais ou menos, o que um nome como “ABC” era nos anos oitenta. São estas as primeiras “letras” do alfabeto de quem aprendeu primeiro a clicar num rato. Continue reading ‘É quase Verão (no Hemisfério Sul)’
Boys Noize e Nadine Bleses respondem a Tiago Manaia
Alex Ridha (Boys Noize) e Nadine Bleses são namorados.
Ele é o DJ que mais estragos provocou na nossa pista de dança, ela é sócia dele. Dirigem juntos a editora Boys Noize Records, trabalham em casa. Um apartamento preenchido pela música de Alex e os contratos que se assinam ao mesmo ritmo. Desta vez quisemos falar com Nadine, perceber como gere o fenómeno construído à volta de Boys Noize. Um e-mail telegráfico diz-
-nos: “estamos em digressão, estamos do outro lado do mundo”. Depois da Ásia, mudam de rumo, vão até as Américas. Só depois chegam a Lisboa para conhecer as novas pernas do Lux. Pedimos então pouca coisa, uma palavra, um desenho. Qualquer coisa serve. De um Blackberry chega-nos a mensagem que se segue:
Aviso: esta coluna dedica-se à análise de grandes letras da história da pop, desrespeitando deliberadamente quaisquer direitos (ou intenções) do autor.
NIKITA
Elton John/Bernie Taupin, 1985
Este mês, escolho a “Nikita”. Isto porque constituiu uma das passagens mais traumatizantes da minha pré-adolescência e a primeira relação de amor-ódio que desenvolvi. Se por um lado me encontrava perdidamente apaixonado pela Anya Major, a rapariga russa do vídeo, reminiscências ainda de uma tendência eslava que se tinha iniciado com Nastassja Kinski, pelo outro a simples audição dos primeiros acordes causavam-me urticária, o que num rapaz de 13 anos se parecia com acne galopante.
E depois porque estou mesmo convencido que, tem o Elton feito uma música destas dedicada a Bin Laden, o mundo a isto não tinha chegado.
Passo a explicar porquê. Continue reading ‘Filologia Livre da Pop do meu poluído imaginário’
Não teria sido necessário, mas está bem de ver que a máquina fotográfica foi inventada para isto e só para isso. Ainda que fotografasse a árvore, a rua, o navio, era o desejo que a objectiva procurava, despia, fixava. Fotografias a sério, só as de Bettie Page, a rapariga norte-americana que viverá ao nosso lado para sempre com sangue índio, a professora que trocou o ensino da língua pelo adestrar das carnes, que continuou a ir à missa aos domingos, não sem que o ritual aos sábados a despisse para a vestir de cabedais e chicote.
Escrito a luz, ressurgindo no escuro de químicas misteriosas, todo o processo diz respeito a esta fêmea que queria ser o que nunca chegou a ser, mas acabou sendo bastante mais. Desejava o amor, e até casou com um marinheiro, mas acabou catequista de fundamentalismos bacocos. Desejava ser actriz, mas foi apalpada por Howard Hughes. Foi filmada uns poucos minutos, é verdade, mas continua a interpretar os mais selvagens dos sonhos, como mais um electrodoméstico na década que inventou o bem-estar caseiro. Na superfície de cetim das cortinas, nas meias de renda, nos bikinis rasgados a fingir de selva, nos vestidos de noite, nas correias do bondage, nos cones com franjas de tapar os mamilos, nas máquinas de esticar e pendurar para melhor açoitar, nestes detalhes se encontra a sociedade que quer muito, que quer tudo em cores saturadas: gastar-se, consumir-se, arder. Sociedade puritana e sexy como uma pele nívea, que de tão recalcada aspira à perdição. Continue reading ‘As mamas de Betty’