Era de um bom título que eu precisava

img_8198Podia começar este texto a descrever as coisas que tenho à minha volta. E não estou a falar das colunas e colunas de texto dos caros colegas que me rodeiam nesta página, na anterior e na que se segue. Estou a falar do que tenho em cima da mesa neste momento em que escrevo. A marca do computador em que estou a teclar.
A sujidade que se acumula em determinadas zonas do tampo. Se bebo quantidades impressionantes de água ou qualquer outro líquido. Ou se olho para o ecrã a mandar fumo pela boca, ridícula, como estrela de film noir a reflectir olhando para o infinito. E do tempo que me levou a começar este texto, do quão atrasada estou, ou de como me consigo sempre atrasar um bocadinho mais. Depois podia dizer que escrevo numa secretária comprada não sei onde, num sítio exótico, e como os meus horários de trabalho são rigorosos e como existem animais mais ou menos silenciosos, que não são cães nem gatos, que passeiam rasteiros ao chão.
Antes de me sentar aqui hoje dei-me ao trabalho de reunir todas as revistas Time Out lisboeta com a coluna “Como Eu Escrevo” na secção de Livros. Não sai todas as semanas, é só de vez em quando. Isto deu um bom molho de revistas em cima do repousa-pés, todas com o seu respectivo post-it rosa forte a marcar a respectiva página. Dei-me também ao trabalho de ir procurar na versão inglesa, a “original”, a mesma coluna e de tentar perceber quando foi introduzida na revista. Depois, ainda fui “printar” todos os textos da rubrica “writer’s rooms” do jornal The Guardian. E depois de ler tudo de enfiada, achei que devia parar um bocadinho. Deve ter sido por isso que me atrasei.
O que eu gostava mesmo agora é que nesta altura do campeonato o texto já tivesse caracteres suficientes para ter dobrado duas colunas e fosse o momento em que quem estivesse a ler, já não estivesse mesmo a ler, já estivesse noutro sítio qualquer.
Mas seguindo, o objectivo, o ponto de partida, era escrever um texto muito informativo sobre a maneira como os grandes escritores escrevem. Cheio de curiosidades e actividades excêntricas como, por exemplo, referir que Virgina Woolf, George Sand, Charles Dickens, Fyodor Dostoievski, Lewis Carroll ou Vladimir Nabokov, em determinada altura das suas carreiras, escreveram de pé. E mais, dando o ênfase necessário aos “nossos” escritores, que Fernando Pessoa fez o mesmo contra uma cómoda. Depois era o irresistível escritório de Will Self, adornado com uma parafernália de pequenos post-its (amarelos) todos do mesmo tamanho e todos dispostos rigorosamente nas paredes que rodeiam a sua secretária. Cheios de anotações. Fiquei demasiado tempo a ver as fotografias que percorrem o seu estúdio a 360 graus e que estão no site do autor.
E passados alguns parágrafos, relatar também tudo o que descobri, de uma assentada, sobre tantos escritores portugueses, que agora já confundi e que se encontram em memórias rarefeitas na minha cabeça. O que ficou foi um deles gostar de escrever com muito pouca roupa, outro admitir que lê sempre as colunas dos colegas para saber como escrevem, apesar de o achar fútil, outro, se a memória não me falha, que dá tragos de verde tinto e conhaque de reserva e afins. Lembro-me de uma citação de Montesquieu referida já não sei por quem que me encheu de esperança, “Não há desgosto que uma hora de leitura não elimine”, e outra que me encheu de uma esperança ainda maior - que a escrita até poderia acontecer “depois de uma noitada no Lux”.
E agora o que era mesmo bom era sair-me uma daquelas frases que, sem qualquer dúvida, dão aquelas chamadas no meio do texto que ficam tão bem porque são a única frase a ser lida, com excepção do título, claro, pela maioria das pessoas.
Ainda pensei também que, depois de ler tantas experiências diferentes, podia reunir e enumerar todos os pontos em comum que fui encontrando. Os livros de referência que povoam as mesas, as estantes nunca suficientes para todos os outros livros, a solidão do acto, os gatos como única possível companhia, os horários precisos adoptados por tantos, “cinco da manhã, quatro e meia”, os que gostam do ruído da cidade para escrever, os que só escrevem quando estão noutro país, os que põem música só como barulho de fundo, os cadernos (muitos moleskines) com notas, os que têm a sorte de ter um
Rauschenberg no escritório.
Podia ser isto tudo num texto que acabaria por ser uma espécie de ensaio frutuoso sobre a maneira como os escritores escrevem e que terminaria com conclusões, úteis. Mas a coluna não estica mais, e se esticar o resto dos caracteres ficam escondidos por esta caixinha aqui em baixo. E já não há mais espaço entre as letras para encurtar. E tenho que acabar. Agora.

1 Response to “Era de um bom título que eu precisava”


  1. 1 luis royal

    proust acabou num quarto revestido a cortiça a ditar o tempo perdido.

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