
Um estudo diz que os metrossexuais têm os dias contados e que o que está a dar agora é o neossexual, um homem que fica ali entre o troglodita e o excessivamente efeminado. Será?
Uma conhecida marca de desodorizantes achou que manter as axilas do povo arejadas e cheirosas não era missão suficientemente intrincada. Vai daí e aventurou-se num projecto muito mais arrojado: perceber que tipo de homens é que as mulheres gostam. Ora para descobrir tal coisa, a marca realizou um estudo em 14 países do mundo. Portugal ficou de fora, as Filipinas entraram. Tudo bem. Podemos falar de fado e até damos uns toques na bola, mas, ao que tudo indica, homens não é o nosso forte. Paciência.
As conclusões, como quase tudo o que deriva de uma generalização massiva, deixam-me dúvidas. Primeiro ponto: 59% das mulheres dizem estar pelos cabelos com os metrossexuais. Ou seja, os homens que levam tanto ou mais tempo do que nós a arranjarem-se e que empenham mais de metade do salário em anti-rugas, máscaras faciais, sessões de solário e depilação a partes do corpo que raramente vêem a luz do dia.
Aqui balanço, porque desconfio que estamos perante um típico caso de feitiço que se virou contra o feiticeiro. Quem é que lutou anos a fio pelo fim do champô 2-em-1 no chuveiro deles? Nós! Quem é que começou a torcer o nariz aos peitos felpudos tipo Tony Ramos? Nós! Quem é que lhes explicou que os pontos negros se podem combater? Nós! Quem é que lhes revelou as maravilhas que um bom creme hidratante pode fazer pela pele? Nós! Quem é que insistiu que não há cheiros naturais agradáveis e que o perfume é obrigatório? Nós! E agora vimo-nos queixar?
Introduzimos uma data de procedimentos na rotina higiénico-estética dos homens e, claro, eles não conseguem acompanhar tanta inovação. Tudo leva horas, tudo requer uma vida. Em média, um metrossexual daqueles mesmo à séria, deve demorar umas boas três horas até sair de casa. Imune, claro, aos gritos e lamentos da pobre mulher, que tudo o que quer é meia horinha em frente ao espelho da casa de banho para passar de monstro a bela (aquela coisa de que há mulheres que acordam frescas, penteadas e com bom hálito não passa de mito cinematográfico).
No fundo, queremos o melhor de dois mundos: homens cheirosos, macios e de boa cara, mas que consigam ficar assim em tempo útil. E, sobretudo, que não falem demasiado sobre o assunto, nem com muito entusiasmo. Ouvir dois homens a discutir qual é a melhor pedicura ou a quanto é que está a lipoaspiração é meio caminho andado para um turn off irreversível.
Segunda conclusão: 80% das mulheres querem um homem sensível mas que demonstre o seu lado viril e másculo. Ou seja, um homem auto-confiante e determinado, mas que não se proíba de ter valores emocionais, e ainda que ofereça flores à sua mulher e continue a amá-la apaixonadamente. Palavras do estudo, não minhas. Quer-me cá parecer que isto é um bocadinho como o Kinder Surpresa. São desejos a mais. 80% das mulheres querem, basicamente, tudo. Que o homem saiba o que quer da vida e não seja apanhado a ler “O Segredo”, que consiga derramar uma lágrima numa comédia romântica de domingo à tarde, que encha a casa de rosas e, já agora, que continue a acartar com os sacos das compras e que largue uns belos palavrões ao ver a bola, como prova da sua masculinidade. Eu, que não ando nisto há muito tempo, já percebi que na vida há que fazer opções. E sei que homens assim… não existem. Poderá haver um lá para Trás–os-Montes, dois ou três em Lisboa, quem sabe meia dúzia nas ilhas, mas não são uma espécie em abundância. E, assim de repente, que graça é que tem a perfeição? Não descamba sempre no tédio precoce?
Terceira conclusão: 85% das mulheres afirmam que o que as seduz mais num homem é o beijo apaixonado, a determinação quando as levam para a cama, e a forma como as fazem sentir sensuais e desejadas. Pois, pois, tudo muito bonito, não fossem os homens (alguns, alguns) capazes das maiores patranhas para conseguirem enfiar uma mulher nos lençóis (ou no carro, ou na casa de banho do centro comercial). Beijos apaixonados todos conseguem, juras de amor eterno também, o pior é o resto. Ou melhor, o pior é o depois, quando o arrebatamento “baixou” e há que escapar de fininho, com a promessa de um telefonema em breve.
Em suma: diz o estudo que uma nova identidade sexual está a emergir, e que vêm aí os neossexuais. Ou seja, um homem que fique ali a meio caminho andado entre o troglodita e o excessivamente efeminado, que não arrote à mesa mas que também não saiba de cor mais de dez marcas de cremes. Um homem normal, arrisco eu, com todo o peso que a normalidade exige (e que é muito).
Não sei se os neossexuais vão vingar, até porque não sei se percebi bem o conceito. Suspeito que vamos estar a contribuir de forma dramática para a esquizofrenia masculina, num minuto a dizer que os queremos viris e mauzões, no minuto seguinte a dizer que têm de ser sensíveis e bons meninos. É que se já passam a vida a achar que somos demasiado complicadas e impossíveis de decifrar, temo que a partir daqui desistam. Sem passagem pela casa de partida.
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