Novembro é um bom mês para começar outra vez

Parecia que era desta que tínhamos um endless summer sem sairmos do mesmo lugar. A fantasia de perseguirmos o Verão à volta do mundo ia sendo substituída pelo pesadelo do Verão a perseguir-nos pelas ruas de Lisboa em pleno Inverno. Bem-vindo o Frio! Mais quinze dias de calor e colávamos o Verão normal ao Verão de São Martinho. Imaginem só: os verões colados, mais dois meses de roupa colada ao corpo e a novidade desagradável de descobrirmos a sensação de cascas de castanha coladas à pele suada.

Mas pronto, nada disto aconteceu, o que quer dizer que podemos adiar o Armaguedão pelo menos mais um ano. E isto não é uma questão de alarmismo ambiental nem de tradicionalismo climatérico, o que estamos a tentar preservar é o exemplo que a natureza sempre nos deu de que os contrastes se sucedem e uma estação dá a vez à próxima, na maioria das vezes diferente, contrastante. Como se as quatros estações fossem uma mixtape com uma playlist organizada em 4 grandes moods. Como se fossem uma sinfonia até.

Precisávamos de razões novas para dançar. Precisávamos de mudar de clima e fazer descer a temperatura para termos o prazer de a fazer subir. À liberdade da pele à mostra, sucede-se agora o mistério bom de um sobretudo. E sobretudo, o frio é uma muito boa razão para nos aproximarmos e dançarmos para aquecer.

november

Francisco Queirós, “tu és feito de luz brilha”, 2009

De cada vez que faz uma exposição, Francisco Queirós (n. 1972, Lisboa), apresenta obras em diversos suportes. Vídeos, esculturas, desenhos, instalações, colagens, objects trouvés ou mesmo, por exemplo, graffiti feitos directamente nas paredes da galeria.

Para o trabalho deste artista, que se centra num universo infanto-juvenil, tudo pode servir de material – uma conversa no messenger, uma árvore encontrada no meio da mata, um pacote de leite, uma lenga-lenga inventada, um gira-discos velho. A linguagem é sempre parte integrante, seja no meio dos seus desenhos, seja em diagramas na parede que informam o visitante de todas as obras presentes na exposição, seja em pequenas acções que vamos descobrindo pelo espaço.

Este mês a nossa obra de arte em formato “poster” é um desses graffiti que Francisco Queirós pinta nas paredes brancas da galeria. “tu és feito de luz brilha” pode ser visto in loco na exposição “Meathaus”, comissariada por João Mourão, que está no Museu Bordalo Pinheiro, em Lisboa, até dia 15 de Novembro.
SP

Francisco Queirós, “tu és feito de luz brilha”, 2009, marcador preto sobre parede, dimensões variáveis.

Cortesia do artista

Download PDF Flyer

1 Response to “Novembro é um bom mês para começar outra vez”


  1. 1 Carla Lopes

    Apreciei particularmente esta parte: “Precisávamos de mudar de clima e fazer descer a temperatura para termos o prazer de a fazer subir. À liberdade da pele à mostra, sucede-se agora o mistério bom de um sobretudo.”

    Parece-me que a Vida é bem mais interessante quando repleta de contrastes e dicotomias, quer seja nas tonalidades da Natureza, na banalidade do vestuário comprometedor, ou até mesmo nos sons que tanto nos inspiram neste frenesim do dia-a-dia.

    Seja bem vindo o doce Novembro.

    Abraço,
    Carla Lopes.

Leave a Reply