Miúdos, minudências, mesquinhices, meninices, ninharias, interstícios, entranhas da língua, do bucho e outras miudezas.
É sobre a subtileza canalha das palavras gelatinosas e de expressões impressionistas que esta coluna irá tratar (não no sentido em que o Prof. Karamba trata, mas algo mais ao género reclinado do Prof. Júlio Machado Vaz). Porque as palavras são esguias e matreiras, hoje dizem uma coisa e amanhã dizem duas, neste contexto aplaudem, naquele arrasam. Cada mês surgirá um tema, uma vítima estraçalhada para sádico ver e estrangeiro aprender.
Não basta saber o padrão da moda, o designer que está a despontar, a droga que condiz com o tampo de sanita da discoteca ou o autor que fica bem debaixo da perna curta da mesinha de cabeceira. É preciso saber quais as palavras inaptas, secretas e non gratae. É preciso saber com quantas sílabas se constrói ou se enterra uma geração, que expressões abrem bocas e que gemidos fecham pernas.
Esta é uma rua sésamo erecta, uma sublevação pelo português unplugged e contra o português correcto, um discorrer de ideias feitas e idealizações desfeitas, mais sobre saídas, do que entradas no dicionário. Aqui não se procura o acordo, encontra-se o grotesco dos costumes e dos jogos duplos, as vozes arranhadas pelo jargão e a quebra dos códigos que fazem de Camões mais jaz que Vaz. A minha, a tua, a nossa pátria é a bastardia, de raças, de sexos e de línguas. E se uns martelam na pedra a história oficial, já as ruas, as estivas, os analfabetos, os comentadores de plantão e os amantes incendiados escrevem a história não escrita, por vezes só vislumbrada de relance na ponta da língua, do pé ou de uma ponta-e-mola.
Palavra convidada este mês
Não é bem uma palavra, é um sinal dos tempos entrecortados, um ponto negro e seco que quebra em casos de emergência ou necessidade, um ditador bruto, redondo, determinado, terminal a finalizar relações e orações, um convidado de último recurso escolhido em função da falta de espaço, um ser frustrante, pequenino, solitário, decisivo e conclusivo – o ponto final.
Bacharel Paiva Boléu
Belo texto e a definição de ponto final vai ser uma referência. Aposto