Nada a perder

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Abençoados sejam os pobres, pois vosso é o reino dos Céus. Abençoados sejam os que têm fome, pois serão satisfeitos. Abençoados sejam os que agora choram, porque um dia irão sorrir.  Lucas 6:20-21

Quando eu era estudante na Universidade Nova de Lisboa passava todos os dias, no caminho que ia do autocarro até aos portões da faculdade, por um grafitti numa parede, cinzenta e lúgubre, onde se lia: “Quem Nada Tem, Nada Tem a Perder”. Na altura, pensava que era o provérbio de um tolo embriagado; hoje – massacrado, tal como vocês, pelos profetas do Apocalipse que, por toda a parte, vaticinam o fim do Planeta Anteriormente Conhecido Por Terra – revejo-me cada vez mais nesta máxima que, a curto prazo, me parece solução indispensável para os anos miseráveis de recessão que se anunciam. Não estou a falar de soluções para o mundo; estou a falar de soluções para as nossas vidas, que, felizmente, passam ao lado dos índices da Nasdaq.    

Claro que é fácil dizer que preferimos ser pobres e felizes a ricos e miseráveis, quando as nossas hipóteses de virmos a ser ricos são cada vez mais parecidas com as hipóteses de ganhar o Euromilhões; o problema está em acreditar nisso, ou melhor: em convencermo-nos absolutamente de que a pobreza é uma virtude, num mundo que parece absolutamente desprovido de virtudes. A cultura de consumo desorientado que, recentemente, parecia ter recebido uma sentença de morte, ainda está viva e bem viva num país curioso como o é o nosso, onde a venda de carros de luxo aumenta no princípio de um ano em que, com algum azar, os donos dessas viaturas acabarão a dormir nelas, o avô no porta-bagagens, a mãe e a filha no banco traseiro, a mobília amarrada ao tejadilho, e o pai no banco da frente, agarrado com unhas e dentes ao derradeiro símbolo do status quo: “É um Mercedes, palerma!”

Mas o passado tem uma maneira singela de nos fazer pensar duas vezes. Em tempos de pobreza, olhamos para trás à procura de pistas para o futuro; com frequência encontramos os exemplos mais caricatos. No dia 3 de Outubro de 1949, o escritor Edgar Allan Poe foi encontrado em delirium tremens nas ruas de Baltimore, vestido com roupas que não lhe pertenciam, alcoolizado, incoerente, e incapaz de especificar onde e com quem estivera nos dias anteriores. Morreu dias depois num hospital de Baltimore, aos 40 anos. Partiu demente, pobre, injustiçado e, diriam alguns historiadores literários ávidos de escândalo, tão louco como as suas histórias de terror e de morte. Isto depois de, em vida, ter visto a sua mulher falecer de tuberculose, de se ter casado com uma prima de 13 anos em segredo, e de se ter arruinado, financeira e espiritualmente. Foi, provavelmente, um dos maiores escritores que alguma vez pisaram este mundo; e o reconhecimento chegou tarde demais. Em resumo, nada de novo: faz-se mea culpa e idolatra-se um mártir. Eu tendo, porém, a desconfiar da suposta felicidade no além destes putativos mártires, que falharam em vida o que a eternidade lhes soube trazer. Mozart, Poe, Fernando Pessoa,
Charlie Parker: atribui-se-lhes um destino post mortem, uma vingança num outro mundo que, estou certo, qualquer um deles trocaria por cinco minutos a mais neste; provavelmente, num bar pejado de moscas ou num palco carregadinho de serradura. Que importa? Mas, e se a fortuna lhes tivesse batido à porta em vida? Teria feito alguma diferença, se pudéssemos ter removido a pobreza das suas circunstâncias?

A resposta é “não”. As pessoas mais felizes que alguma vez conheci viviam na penúria. Em Brooklyn, no Verão de 2002, menos de um ano depois dos atentados do 11 de Setembro, privei com a família Lawrence, afro-americanos que habitavam um apartamento com um enorme buraco no tecto, que lhes oferecia um palco privilegiado para a observação das estrelas que abraçam a noite nova-iorquina. A filha mais nova dormia debaixo desse buraco, num saco cama, porque dizia que as estrelas eram como fadas; o pai e a mãe sabiam, no entanto, que, lá para o final do Outono, quando as brisas agrestes e as chuvas - e, já no Inverno, a neve - lhes começasse a entrar pela casa adentro, como um inquilino indesejado, dificilmente alguém sobreviveria naquele lugar. E, embora o pai estivesse desempregado e a mãe fosse uma mera bibliotecária no City College of New York, todas as noites se sentavam com as duas filhas para jantar exibindo um sorriso nos lábios que era, ao mesmo tempo, um manifesto à loucura e uma assinatura bem legível no acordo que os homens fazem com a vida: o de perdurar nesta só e até o diabo nos piscar o olho. Dizia Sándor Márai, o escritor húngaro: “Não é verdade que o destino entre cego na nossa vida”. Porque, adiantava, não existe nenhum ser humano que seja suficientemente forte ou inteligente para desviar com palavras ou acções o destino que advém da sua natureza. Desta perspectiva – e quase absurdamente -, tanto Poe como Parker cumpriram o seu destino, nunca desejando ser diferentes daquilo que são – também, segundo Márai, a maior tragédia com que o destino nos pode castigar. Poe ou Parker nasceram para ser geniais, proféticos, alcoólicos e pobres; os vícios eram uma parte constitutiva das pessoas que foram. Tirem-se-lhes as influências vaporosas, e é como colocar um elefante numa conferência das Nações Unidas: há coisas que não cabem em mais parte nenhuma. Ambos viveram em tempos difíceis. E é em tempos difíceis, como bem o sabia Dickens, que a verdadeira natureza dos homens se revela. Não é verdade, nem nunca o foi, que a felicidade passa necessariamente pelo dinheiro. O dinheiro, esse sim, é que passa pela felicidade e, de tantas vezes passar, acaba por confundir-

-se com esta.

Assim, estou convencido de que a natureza dos portugueses – pelo menos dos portugueses nossos contemporâneos - é a boémia e nunca a escravidão; é o vinho ao jantar a desoras, e não o chá das cinco em ponto. É preciso reconhecer, agora que os tostões substituíram as notas chorudas nas nossas carteiras, que talvez não estejamos geneticamente predispostos para a felicidade que advém da prosperidade: que, em última análise, poucas coisas nos fazem falta e essas coisas são aquelas que, afinal, julgávamos dispensáveis. É mais importante jantar com um bom amigo do que jogar na bolsa; é mais importante ver o nascer do sol na varanda do Lux (wink, wink) do que o crepúsculo no tablier de um Porsche. Não se trata de ser pobre, trata-se de querer ser pobre, de abraçar a falta de abundância e fazer muito do pouco que se tem. Tal como os génios do passado, também nós saberemos ser criativos: quem nada tem, nada tem a perder.

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